O hemograma no Mieloma Múltiplo

O Mieloma Múltiplo é uma neoplasia de plasmócitos que se proliferam de forma clonal na medula óssea, produzindo imunoglobulina monoclonal em excesso. É a segunda neoplasia hematológica mais comum em adultos, com mediana de diagnóstico entre 65 e 69 anos. Seu diagnóstico formal exige a integração de múltiplos critérios clínicos e laboratoriais, mas o hemograma e o esfregaço de sangue periférico frequentemente são os primeiros exames a levantar a suspeita. Reconhecer os achados hematológicos iniciais do mieloma é uma competência que pode encurtar significativamente o caminho até o diagnóstico.

Achados do hemograma no Mieloma Múltiplo

O hemograma no mieloma múltiplo apresenta, na maioria dos casos, anemia normocítica normocrômica como achado predominante. Essa anemia resulta da supressão da eritropoiese normal pela proliferação plasmocitária na medula óssea, pela insuficiência renal frequentemente associada e pela produção de citocinas inibitórias pelo clone neoplásico. Em casos avançados, a plaquetopenia e a leucopenia podem compor um quadro de pancitopenia, refletindo o grau de infiltração medular.

A velocidade de hemossedimentação costuma estar muito elevada, frequentemente acima de 100 mm/h na primeira hora, em virtude da hiperproteinemia monoclonal. A dosagem de beta-2 microglobulina e a eletroforese de proteínas séricas são os exames que confirmam a suspeita levantada pelo hemograma.

Rouleaux no esfregaço

Um achado característico do mieloma múltiplo, no esfregaço de sangue periférico é o Rouleaux, definido pelo empilhamento de hemácias, como pilhas de moedas. Esse arranjo, no Mieloma, resulta da presença de proteínas monoclonais em excesso no plasma, especialmente IgG e IgA, que neutralizam a carga elétrica negativa da superfície eritrocitária e permitem que as células empilhem-se. O Rouleaux é mais bem visualizado nas extremidades do esfregaço, sob menor ampliação.

Cabe destacar que o Rouleaux intenso pode interferir na contagem automatizada de hemácias, gerando resultados falsos nos índices hematimétricos. Além disso, em casos com maior carga tumoral e infiltração medular avançada, podem ser observados plasmócitos circulantes no esfregaço. A identificação de plasmócitos no sangue periférico é um achado de que exige cautela, quando associado a outras informações clínicas, e achados do paciente, deve reforçar a suspeita para mieloma.

O papel do laboratório na cadeia diagnóstica do Mieloma Múltiplo

O diagnóstico de mieloma múltiplo exige a integração de critérios laboratoriais específicos. A triagem inicial inclui hemograma, com avaliação do esfregaço sanguíneo,  dosagem de cálcio, creatinina, LDH, beta-2 microglobulina, albumina e, principalmente, eletroforese com imunofixação de proteínas séricas e urinárias. A detecção de pico monoclonal na eletroforese é o achado laboratorial mais específico e deve ser seguida de quantificação das cadeias leves livres séricas e do mielograma com imunofenotipagem.

O laboratorista que identifica anemia normocítica normocrômica, com VHS muito elevada, e Rouleaux no esfregaço em um paciente acima de 60 anos, deve registrar esse conjunto de achados com objetividade no laudo, pois essa combinação é altamente sugestiva de gamopatia monoclonal. A qualidade da observação morfológica nesse momento pode determinar se o paciente será investigado precocemente ou aguardará meses até a identificação da doença.

Referências

OLIVEIRA, Larissa Santana; ALCANTARA, Thiago Ruan de Lima. Atlas em hematologia: um guia visual para a identificação de células sanguíneas. 1. ed. Salvador: Oxente, 2025.

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