Hemograma na Dengue

A dengue é a arbovirose de maior prevalência no Brasil e um dos principais desafios de saúde pública em regiões tropicais e subtropicais. O hemograma é o exame laboratorial mais solicitado na suspeita clínica de dengue e, quando corretamente interpretado, oferece informações de valor diagnóstico e prognóstico significativo. 

A evolução temporal dos parâmetros hematológicos ao longo das fases da doença é um aspecto frequentemente subestimado na prática laboratorial. Reconhecer o padrão hematológico característico da dengue, seus valores de alerta e as limitações do hemograma isolado é uma competência indispensável para o profissional de laboratório, especialmente em contexto de urgência.

Leucopenia e linfocitose reativa: o hemograma na fase febril

Nos primeiros dias da infecção pelo vírus dengue, o hemograma tipicamente apresenta leucopenia, com contagem total de leucócitos abaixo de 4.000 células/µL, frequentemente acompanhada de linfocitose relativa e neutropenia. Esse padrão reflete a resposta imune antiviral: os leucócitos são recrutados para os tecidos e sofrem destruição mediada pelo vírus e pela resposta imune celular. A leucopenia com linfocitose relativa, em contexto clínico e epidemiológico compatível, é um achado hematológico sugestivo de infecção viral e deve ser valorizado.

No esfregaço de sangue periférico, podem ser observados linfócitos reativos, também chamados de linfócitos plasmocitoides, com citoplasma mais abundante e basofílico. A presença dessas células não é específica de dengue, mas reforça o padrão de resposta viral.

Plaquetopenia: o parâmetro mais monitorado e mais mal interpretado

A plaquetopenia é o achado hematológico mais característico da dengue e o mais acompanhado clinicamente. Ela se instala geralmente entre o terceiro e o quinto dia de doença, atingindo valores mais baixos entre o sexto e o oitavo dia, com recuperação espontânea na fase de convalescença. Seus mecanismos incluem supressão da trombopoese medular pelo vírus, destruição imunomediada de plaquetas por anticorpos cruzados e consumo periférico por ativação plaquetária.

A intensidade da plaquetopenia na dengue não determina, isoladamente, o risco de sangramento grave. Pacientes com dengue grave podem apresentar sangramentos mesmo com contagens acima de 50.000/µL, em função de disfunção plaquetária qualitativa e alterações da coagulação. Por isso, o hemograma na dengue deve ser interpretado em conjunto com os sinais clínicos de alarme: dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramento de mucosas e alterações hemodinâmicas. A contagem de plaquetas isolada não define a conduta.

Hemoconcentração e sua correlação com a fase crítica

A elevação progressiva do hematócrito é um dos marcadores mais importantes da fase crítica da dengue, indicando extravasamento plasmático para o espaço extravascular. Um aumento do hematócrito igual ou superior a 20% em relação ao valor basal é critério de alerta para dengue grave, associado a risco de choque hipovolêmico. Esse parâmetro, disponível no hemograma convencional, é uma ferramenta de monitoramento simples e eficaz, mas exige que o profissional de saúde compare os valores seriados do paciente ao longo da evolução.

Portanto, o hemograma serial na dengue tem valor diagnóstico e prognóstico que o exame isolado não oferece. O profissional de laboratório que compreende a dinâmica temporal das alterações hematológicas da dengue contribui para que os resultados sejam interpretados com a contextualização correta, evitando tanto a subestimação quanto o alarme desnecessário.

Referências

OLIVEIRA, Larissa Santana; ALCANTARA, Thiago Ruan de Lima. Atlas em hematologia: um guia visual para a identificação de células sanguíneas. 1. ed. Salvador: Oxente, 2025.

BIASSOTI, AMABILE VISIOTI; ORTIZ, MARIANA APARECIDA LOPES; DA DENGUE, DIAGNÓSTICO LABORATORIAL. Diagnóstico laboratorial da dengue. Uningá Review, v. 29, n. 1, 2017. 

DE OLIVEIRA, Ana Carolina Santana et al. Alterações do hemograma no diagnóstico de dengue: um estudo de 1.269 casos na cidade de Uberaba, Minas Gerais. Revista de Patologia Tropical/Journal of Tropical Pathology, v. 41, n. 4, 2012. 

BARBOSA, Bruno Rafael Sousa; DE CALDEIRA JÚNIOR, Antônio Marmoro. Leucopenia e trombocitopenia no diagnóstico da dengue. REVISA, v. 7, n. 3, p. 171-180, 2018.