O hemograma e a trombocitose

A trombocitose, definida como contagem plaquetária acima de 450.000/µL, é um achado frequente no hemograma e, na maioria dos casos, tem origem reativa e curso benigno. Entretanto, quando a elevação é expressiva, persistente ou acompanhada de outras alterações no hemograma, ela pode ser a manifestação inicial de uma neoplasia mieloproliferativa que exige investigação específica. Distinguir trombocitose reativa de trombocitose clonal é uma das tarefas mais relevantes do raciocínio hematológico laboratorial, pois as implicações diagnósticas, prognósticas e terapêuticas de cada uma são completamente distintas.

Trombocitose reativa: causas mais frequentes e características laboratoriais

A trombocitose reativa representa a grande maioria dos casos identificados na rotina laboratorial. Ela resulta do aumento transitório na produção plaquetária em resposta a um estímulo externo, sem que haja proliferação clonal das células progenitoras. As causas mais comuns incluem infecções agudas e crônicas, doenças inflamatórias, cirurgias recentes, deficiência de ferro, anemia hemolítica, uso de alguns medicamentos e esplenectomia.

Na deficiência de ferro, a trombocitose ocorre por mecanismo ainda não completamente elucidado, possivelmente relacionado a perda de massa eritroide, que pode ser compreendida como perda sanguínea. Após esplenectomia, o aumento plaquetário pode ser expressivo, frequentemente ultrapassando 1.000.000/µL nas primeiras semanas, sem que isso represente neoplasia. Do ponto de vista laboratorial, a trombocitose reativa costuma ser acompanhada de marcadores inflamatórios elevados, como proteína C reativa e VHS, além de fibrinogênio aumentado. A morfologia plaquetária no esfregaço é, em geral, normal.

Trombocitemia essencial e outras neoplasias mieloproliferativas

A trombocitemia essencial é uma neoplasia mieloide crônica caracterizada pela proliferação clonal de megacariócitos, com trombocitose sustentada e risco de complicações trombóticas e hemorrágicas. Seu diagnóstico formal requer contagem plaquetária igual ou superior a 450.000/µL associada à presença de mutações nos genes JAK2, CALR ou MPL em aproximadamente 80% dos casos, além da exclusão de outras neoplasias mieloides e causas reativas.

A trombocitose clonal também pode estar presente na policitemia vera, na mielofibrose primária e na leucemia mieloide crônica. Em todos esses contextos, a trombocitose não é um achado isolado: ela se acompanha de outras alterações no hemograma, como eritrocitose, leucocitose, basofilia ou anemia, dependendo da entidade. A distinção entre trombocitose reativa e primária exige integração entre dados clínicos, laboratoriais e moleculares, com o mielograma e o estudo mutacional como pilares confirmatórios.

Quando o número de plaquetas é apenas o começo

Um aspecto relevante na interpretação da trombocitose é que a contagem plaquetária, isoladamente, não determina o risco de complicações. Na trombocitemia essencial, contagens muito elevadas, acima de 1.000.000/µL, podem paradoxalmente aumentar o risco hemorrágico pela síndrome de von Willebrand adquirida, em que multímeros do fator de von Willebrand são absorvidos pelo excesso de plaquetas e removidos da circulação. Portanto, o número de plaquetas precisa ser interpretado no contexto clínico, morfológico e molecular.

O esfregaço de sangue periférico pode fornecer pistas adicionais: plaquetas grandes e hipogranuladares, agregados plaquetários anômalos e a coexistência de outras células atípicas orientam a suspeita de processo clonal. Cabe destacar que a identificação de uma contagem plaquetária persistentemente elevada sem causa reativa é indicação de investigação hematológica especializada, independentemente do valor absoluto.

Referências

OLIVEIRA, Larissa Santana; ALCANTARA, Thiago Ruan de Lima. Atlas em hematologia: um guia visual para a identificação de células sanguíneas. 1. ed. Salvador: Oxente, 2025.

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TEFFERI, Ayalew et al. Essential thrombocythemia: a review. Jama, v. 333, n. 8, p. 701-714, 2025. 

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