Síndrome Mielodisplásica e o hemograma

A Síndrome Mielodisplásica é um grupo heterogêneo de neoplasias mieloides clonais caracterizadas por hematopoese ineficaz, citopenias periféricas e risco variável de transformação para leucemia mieloide aguda. Sua prevalência aumenta progressivamente com a idade, sendo mais comum em adultos acima de 60 anos. Um dos maiores desafios diagnósticos da SMD é justamente sua apresentação laboratorial insidiosa: citopenias leves, macrocitose discreta e alterações morfológicas sutis no esfregaço podem preceder o diagnóstico formal por meses ou até anos. O profissional que conhece esses sinais precoces tem a capacidade de identificar a SMD antes que ela se apresente em estágio avançado.

Características do hemograma na SMD: citopenias, macrocitose e displasia

O hemograma da SMD não tem um padrão único, mas algumas características são frequentes. A anemia é o achado mais comum, presente em mais de 80% dos casos ao diagnóstico. Ela tende a ser normocítica ou macrocítica, com reticulocitose inadequada para o grau de anemia, refletindo a eritropoese ineficaz. O VCM elevado sem causa aparente em adulto acima de 60 anos, após exclusão de deficiência de B12, folato e hipotireoidismo, deve sempre levantar suspeita de SMD.

A neutropenia e a plaquetopenia, isoladas ou em combinação com a anemia, completam o quadro de citopenia. A SMD pode se apresentar como citopenia de uma única linhagem, condição chamada de citopenia refratária com displasia unilinear, ou envolver as três séries simultaneamente. O critério diagnóstico morfológico requer a presença de displasia em pelo menos 10% das células de uma linhagem hematopoética, avaliada no mielograma. No sangue periférico, a displasia se manifesta de formas reconhecíveis pelo profissional treinado.

Achados morfológicos no esfregaço: Hipossegmentação e hipogranularidade

O esfregaço de sangue periférico é o exame mais acessível para levantar a suspeita de SMD antes da confirmação medular. As alterações displásicas nos neutrófilos são as mais características e as mais facilmente identificáveis. A hipossegmentação nuclear dos neutrófilos, que assumem aspecto bilobulado ou em forma de óculos, assemelhando-se aos neutrófilos imaturos, mas sem o contexto de infecção ou desvio à esquerda reativo.

A hipogranularidade citoplasmática dos neutrófilos, com redução ou ausência de grânulos azurófilos, é outro achado displásico relevante. Plaquetas gigantes e hipogranulares, fragmentos de megacariócitos circulantes e eritrócitos com basofilia pontilhada complementam o quadro morfológico da SMD no esfregaço. 

Vale ressaltar que esses achados, quando presentes de forma isolada, têm especificidade limitada. É a combinação de citopenias com displasia morfológica, em principalmente um adulto, acima de 60 anos que levantam maior suspeita.

Por que a SMD é subdiagnosticada e qual é o papel do laboratório na suspeita precoce.

A SMD é frequentemente subdiagnosticada por dois motivos principais. O primeiro é a natureza insidiosa de sua apresentação: citopenias leves são frequentemente atribuídas a causas reativas, como deficiências nutricionais ou infecções virais, sem investigação morfológica adequada. O segundo é a subutilização do esfregaço de sangue periférico, cuja análise qualificada é indispensável para identificar as alterações displásicas que os analisadores automatizados não capturam.

O laboratório tem papel ativo na suspeita precoce da SMD. A identificação de neutrófilos hipossegmentados, hipogranulares ou com anomalias nucleares no esfregaço deve ser reportada com objetividade no laudo. Além disso, parâmetros de pesquisa disponíveis em analisadores modernos, como o índice de granularidade neutrofílica, têm demonstrado associação com displasia granulocítica, podendo funcionar como indicadores de triagem antes da análise morfológica.

Referências

OLIVEIRA, Larissa Santana; ALCANTARA, Thiago Ruan de Lima. Atlas em hematologia: um guia visual para a identificação de células sanguíneas. 1. ed. Salvador: Oxente, 2025.

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WEINBERG, Olga K.; HASSERJIAN, Robert P. The current approach to the diagnosis of myelodysplastic syndromes☆. In: Seminars in hematology. WB Saunders, 2019. p. 15-21. 

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