Hemograma na Doença Renal Crônica

A doença renal crônica é uma condição de alta prevalência global, com impacto progressivo sobre múltiplos sistemas orgânicos, incluindo o sistema hematopoético. A anemia é uma das manifestações mais precoces e frequentes da DRC, surgindo quando a taxa de filtração glomerular cai abaixo de 60 mL/min/1,73m² e se aprofundando com a progressão da disfunção renal. Entretanto, o hemograma do paciente com DRC não se resume à anemia: ele reflete um conjunto de alterações que incluem modificações na morfologia eritrocitária, na contagem plaquetária e nos parâmetros leucocitários, cada uma com implicação clínica específica. Compreender essas alterações é indispensável para o profissional de laboratório que atua em ambientes hospitalares.

Anemia da doença renal crônica: mecanismos e padrão laboratorial

A anemia da DRC resulta predominantemente da redução na produção de eritropoietina pelo parênquima renal comprometido. Sem esse hormônio, a medula óssea não recebe o estímulo necessário para manter a eritropoiese em níveis adequados. O resultado é uma anemia normocítica normocrômica, com produção de reticulocitos inadequada para o grau de queda da hemoglobina, refletindo a arregeneratividade da condição.

Além da deficiência de eritropoietina, outros mecanismos contribuem para a anemia da DRC: a redução da vida útil das hemácias, pela uremia e pelas toxinas acumuladas; a deficiência concomitante de ferro, muito comum em pacientes em hemodiálise pela perda sanguínea no circuito dialítico; a deficiência de ácido fólico e vitamina B12, pelas restrições dietéticas; e o estado inflamatório crônico, que limita a disponibilidade de ferro pela hepcidina. Portanto, a anemia da DRC é frequentemente multifatorial, e o hemograma isolado não é suficiente para caracterizar todos os mecanismos envolvidos.

Alterações morfológicas eritrocitárias e outros achados no hemograma

O esfregaço de sangue periférico na DRC pode mostrar alterações morfológicas características. As células espiculadas, especialmente os equinócitos e acantócitos, aparecem com frequência em pacientes urêmicos, resultando das alterações lipídicas da membrana eritrocitária induzidas pela uremia. Na DRC associada à hipertensão arterial grave ou a microangiopatias, esquizócitos podem estar presentes, indicando destruição eritrocitária mecânica.

A contagem plaquetária pode estar levemente reduzida em alguns pacientes com DRC avançada, mas a principal alteração plaquetária nessa condição é funcional: a uremia compromete a adesão e a agregação plaquetária, aumentando o risco hemorrágico mesmo com contagens dentro dos limites de referência. Essa disfunção qualitativa não é detectada pelo hemograma convencional e exige testes específicos de função plaquetária para sua avaliação.

Monitoramento laboratorial e metas terapêuticas

O hemograma seriado tem papel importante no monitoramento da anemia da DRC e da resposta ao tratamento com agentes estimuladores da eritropoiese. As metas terapêuticas estabelecidas pelas diretrizes internacionais recomendam manutenção da hemoglobina entre 10 e 12 g/dL nesses pacientes, evitando tanto a anemia grave quanto a normalização excessiva, associada a maior risco trombótico. O hemograma deve ser monitorado mensalmente em pacientes em fase de ajuste de tratamento e a cada três meses em pacientes estáveis.

Além da hemoglobina, o monitoramento do perfil de ferro é indispensável nesses pacientes, pois a deficiência de ferro funcional é frequente e limita a resposta aos agentes estimuladores da eritropoiese. A ferritina abaixo de 100 ng/mL ou a saturação da transferrina abaixo de 20% indicam deficiência de ferro que deve ser corrigida antes de se aumentar a dose dos agentes eritropoiéticos.

Referências

OLIVEIRA, Larissa Santana; ALCANTARA, Thiago Ruan de Lima. Atlas em hematologia: um guia visual para a identificação de células sanguíneas. 1. ed. Salvador: Oxente, 2025.

ABENSUR, Hugo. Anemia da doença renal crônica. J. Bras. Nefrol., v. 26, n. 3 suppl. 1, p. 26-28, 2004. 

ABENSUR, Hugo; BASTOS, Marcus Gomes; CANZIANI, Maria Eugênia Fernandes. Aspectos atuais da anemia na doença renal crônica. J Bras Nefrol, v. 28, n. 2, p. 104-7, 2006. 

CANZIANI, Maria Eugênia Fernandes et al. Deficiência de ferro e anemia na doença renal crônica. J Bras Nefrol, v. 28, n. 2, p. 86-90, 2006. 

MCMURRAY, John JV et al. Kidney disease: Improving global outcomes (KDIGO) anemia work group. KDIGO clinical practice guideline for anemia in chronic kidney disease. Kidney International Supplements, v. 2, n. 4, 2012.