A gestação promove alterações profundas e progressivas na fisiologia materna, e o sistema hematopoético não é exceção. O hemograma de uma gestante saudável apresenta parâmetros que, fora do contexto gestacional, seriam interpretados como anormais.
Reconhecer essas modificações fisiológicas é indispensável para não superdiagnosticar ou subdiagnosticar condições clínicas relevantes durante o pré-natal. Ao mesmo tempo, a gestação é um período de maior vulnerabilidade à anemia ferropriva, que permanece sendo a causa mais frequente de anemia gestacional e cuja prevalência global supera 40% das gestantes. O laboratório tem papel central no monitoramento hematológico durante toda a gravidez.

Alterações fisiológicas do hemograma durante a gestação
A partir da oitava semana de gestação, o volume plasmático começa a aumentar de forma progressiva, podendo expandir-se em até 50% em relação ao período pré-gestacional. Esse aumento é maior do que o incremento da massa eritrocitária, que cresce cerca de 20% a 30%. O resultado é a hemodiluição fisiológica: uma redução relativa na concentração de hemoglobina e hematócrito, que não representa anemia verdadeira, mas é frequentemente interpretada como tal quando não há contextualização adequada.
Os critérios da Organização Mundial da Saúde definem anemia gestacional como hemoglobina abaixo de 11 g/dL no primeiro e terceiro trimestres, e abaixo de 10,5 g/dL no segundo trimestre. O nadir da hemodiluição ocorre entre a 24ª e a 28ª semana. Além das alterações eritrocitárias, o leucograma também se modifica: a leucocitose leve é esperada durante a gestação, com valores de até 12.000 células/µL no segundo e terceiro trimestres, podendo atingir até 16.000 células/µL durante o trabalho de parto. Esse achado não deve ser interpretado como sinal infeccioso sem correlação clínica.

Anemia gestacional: quando é fisiológica e quando exige investigação
A distinção entre hemodiluição fisiológica e anemia patológica na gestação depende do grau de queda da hemoglobina, do trimestre e da presença de alterações nos índices hematimétricos. A anemia ferropriva é a causa mais frequente e tem apresentação laboratorial característica: microcitose, hipocromia, RDW elevado, ferritina reduzida e saturação da transferrina abaixo de 20%. Entretanto, a ferritina pode estar falsamente elevada em contexto inflamatório, e seu valor isolado não deve ser o único critério diagnóstico.
A anemia megaloblástica por deficiência de folato também é prevalente na gestação, pelas necessidades aumentadas do nutriente durante o desenvolvimento fetal. Nesse cenário, a macrocitose com hipersegmentação neutrofílica no esfregaço orienta o diagnóstico. As hemoglobinopatias, especialmente a anemia falciforme e as talassemias, podem ter sua primeira manifestação clínica relevante durante a gestação, pelas demandas aumentadas da eritropoiese. Portanto, a investigação da anemia gestacional deve ser sistemática e não se limitar ao hemograma.
O papel do laboratório no monitoramento hematológico pré-natal
O hemograma é um dos exames mais solicitados no pré-natal e deve ser interpretado com referências ajustadas para cada trimestre gestacional. A realização no primeiro trimestre permite o rastreio precoce de anemia, hemoglobinopatias e outras alterações hematológicas. A repetição no segundo e terceiro trimestres monitora a evolução das citopenias e a resposta ao tratamento quando indicado.
Além do hemograma, o perfil de ferro completo, incluindo ferritina, ferro sérico e saturação da transferrina, é indispensável para o diagnóstico correto da anemia ferropriva gestacional. A eletroforese de hemoglobina deve ser solicitada em todas as gestantes com microcitose e ferritina normal, para exclusão de hemoglobinopatias. O laboratório que oferece esses exames com laudos contextualizados para a gestação contribui significativamente para a segurança materna e fetal.
Referências
OLIVEIRA, Larissa Santana; ALCANTARA, Thiago Ruan de Lima. Atlas em hematologia: um guia visual para a identificação de células sanguíneas. 1. ed. Salvador: Oxente, 2025.
LACERDA, A. K. V. et al. ANEMIAS NA GESTAÇÃO COMO UM PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA. Hematology, Transfusion and Cell Therapy, v. 46, p. S25-S26, 2024.
VAUCHER, Bianca Crossetti. Descrição dos valores de normalidades dos parâmetros do hemograma completo no primeiro e segundo trimestre de gravidez. 2026.
SEVERINO, Ariana Gil. Parâmetros laboratoriais realizados durante a gestação. 2022. Dissertação de Mestrado. Universidade do Algarve (Portugal).