Anemia ferropriva

A anemia ferropriva é a anemia mais prevalente no mundo e, ainda assim, uma das mais frequentemente mal investigada. Sua prevalência global supera 1 bilhão de pessoas, com impacto desproporcionalmente maior em mulheres em idade reprodutiva, gestantes e crianças. 

O diagnóstico correto vai muito além da constatação de hemoglobina baixa com microcitose: envolve a integração entre parâmetros do hemograma, perfil de ferro e contexto clínico. O profissional de laboratório que compreende os estágios da deficiência de ferro e seus reflexos nos diferentes exames está mais bem preparado para contribuir com um diagnóstico preciso e precoce.

Estágios da deficiência de ferro e suas repercussões laboratoriais

A deficiência de ferro evolui em estágios sequenciais, cada um com um perfil laboratorial distinto. No estágio inicial, as reservas de ferro da medula óssea estão reduzidas, mas os níveis séricos de hemoglobina, ferro e VCM ainda são normais. A ferritina sérica é o primeiro parâmetro a cair, tornando-se o marcador mais sensível da depleção precoce das reservas. Valores abaixo de 30 ng/mL em indivíduos sem processo inflamatório ativo indicam deficiência de ferro, mesmo sem anemia.

No estágio seguinte, o ferro sérico cai, a capacidade total de ligação do ferro aumenta e a saturação da transferrina reduz-se para valores abaixo de 20%. Nesse ponto, a eritropoiese já está comprometida, mas o hemograma pode ainda apresentar VCM dentro dos limites de referência. 

Somente no estágio mais avançado é que surgem microcitose, hipocromia, elevação do RDW e queda expressiva da hemoglobina. Portanto, aguardar a instalação completa do padrão microcítico hipocrômico para diagnosticar deficiência de ferro representa um atraso diagnóstico evitável.

O hemograma na anemia ferropriva: o que cada parâmetro revela

No hemograma da anemia ferropriva estabelecida, o VCM está reduzido, frequentemente abaixo de 75 fL em casos moderados a graves. O RDW está elevado, refletindo a heterogeneidade das hemácias produzidas em diferentes graus de deficiência. O HCM/CHCM está reduzido, expressando a hipocromia. A contagem de hemácias pode estar reduzida ou relativamente preservada em relação ao grau de queda da hemoglobina, diferindo do padrão da talassemia menor, em que a contagem eritrocitária tende a ser proporcionalmente mais elevada.

O esfregaço de sangue periférico confirma a microcitose e a hipocromia, podendo mostrar células em alvo, eliptócitos e dacriócitos nos casos mais graves. A reticulocitose está ausente ou inadequada, pois a deficiência de ferro limita a produção medular. O conteúdo de hemoglobina do reticulócito, disponível em alguns analisadores modernos, é um dos parâmetros mais sensíveis para detectar deficiência funcional de ferro antes que o que outros parâmtros se alterem.

Ferritina e perfil de ferro: como interpretar com segurança

A ferritina é o marcador de reserva de ferro mais utilizado na prática clínica, mas sua interpretação exige atenção ao contexto inflamatório. Por ser uma proteína de fase aguda, a ferritina se eleva em estados inflamatórios, infecciosos e neoplásicos, podendo estar normal ou elevada mesmo em pacientes com deficiência de ferro real. Nesse cenário, a saturação da transferrina abaixo de 20% é um parâmetro complementar importante para identificar indisponibilidade funcional de ferro.

O receptor solúvel da transferrina é um marcador que não sofre influência do processo inflamatório e se eleva precocemente na deficiência de ferro, sendo particularmente útil em pacientes com doenças crônicas. Portanto, a interpretação do perfil de ferro exige a análise conjunta de ferritina, ferro sérico, saturação da transferrina e, quando disponível, receptor solúvel da transferrina, sempre correlacionados ao quadro clínico e ao hemograma completo.

Referências

OLIVEIRA, Larissa Santana; ALCANTARA, Thiago Ruan de Lima. Atlas em hematologia: um guia visual para a identificação de células sanguíneas. 1. ed. Salvador: Oxente, 2025.

JORDÃO, Regina Esteves; BERNARDI, Júlia Laura D.; BARROS FILHO, Antônio de Azevedo. Prevalência de anemia ferropriva no Brasil: uma revisão sistemática. Revista Paulista de Pediatria, v. 27, n. 1, p. 90-98, 2009. 

DE SOUZA QUEIROZ, Suzana; TORRES, Marco A. de A. Anemia ferropriva na infância. Jornal de Pediatria, v. 76, n. Supl 3, p. S299, 2000. 

DE CARVALHO, Miriam Corrêa; BARACAT, Emílio Carlos Elias; SGARBIERI, Valdemiro Carlos. Anemia ferropriva e anemia de doença crônica: distúrbios do metabolismo de ferro. Segurança alimentar e nutricional, v. 13, n. 2, p. 54-63, 2006. 

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