Hemograma na Sepse e alterações

A sepse é uma das principais causas de mortalidade em unidades de terapia intensiva e de urgência em todo o mundo. Sua determinação precoce é fundamental para o desfecho clínico, e o hemograma é um dos exames mais prontamente disponíveis nesses cenários. 

Embora a procalcitonina e a proteína C reativa sejam biomarcadores amplamente utilizados, o hemograma pode fornecer informações que precedem ou complementam esses marcadores. O profissional de laboratório de urgência que reconhece os padrões hematológicos da sepse contribui diretamente para a antecipação diagnóstica e a agilidade terapêutica.

Alterações leucocitárias na sepse: leucocitose, leucopenia e desvio à esquerda

A resposta leucocitária na sepse é variável e depende do agente etiológico, da fase da infecção e do estado imunológico do paciente. A leucocitose com neutrofilia é o achado mais clássico nas infecções bacterianas, resultando da mobilização do pool marginal de neutrófilos e do aumento da produção medular estimulada por citocinas inflamatórias como G-CSF e IL-6. Entretanto, a leucopenia com neutropenia pode ocorrer em sepses graves, especialmente por bactérias gram-negativas, indicando consumo periférico superior à capacidade de produção medular: esse padrão, denominado desvio à esquerda degenerativo, está associado a maior gravidade e pior prognóstico.

O desvio à esquerda com presença de bastões acima de 10%, metamielócitos ou mielócitos no diferencial é um marcador precoce de resposta inflamatória sistêmica grave. Esse achado pode preceder a elevação da proteína C reativa e da procalcitonina, tornando-se um sinal de alerta de valor clínico imediato. A identificação morfológica de granulações tóxicas, vacuolizações citoplasmáticas e corpúsculos de Döhle nos neutrófilos no esfregaço reforça a suspeita de infecção bacteriana grave e deve ser reportada com destaque no laudo.

Alterações da série vermelha e das plaquetas na sepse

As alterações da série vermelha na sepse refletem o estado inflamatório sistêmico e as complicações associadas. A anemia normocítica normocrômica é comum em pacientes sépticos internados, resultando da supressão da eritropoiese mediada por citocinas, da redução da vida útil eritrocitária e da anemia de doença crônica subjacente em muitos casos. Nos quadros de sepse com CIVD associada, a fragmentação eritrocitária com surgimento de esquizócitos no esfregaço é um achado de urgência que indica comprometimento microvascular grave.

A plaquetopenia é um dos marcadores prognósticos mais importantes na sepse. Contagens plaquetárias abaixo de 100.000/µL ao internamento ou queda progressiva nas primeiras 24 a 48 horas estão associadas a maior mortalidade. Esse declínio resulta do consumo plaquetário na formação de microtrombos, da destruição imunomediada e da supressão da trombopoese medular. O monitoramento serial do hemograma nas primeiras horas de evolução é, portanto, parte indispensável da avaliação do paciente séptico.

O laboratório de urgência como aliado no reconhecimento precoce da sepse

No laboratório de urgência, o hemograma deve ser processado e liberado com agilidade, e os achados críticos devem ser comunicados imediatamente. A identificação de leucocitose com desvio à esquerda degenerativo, granulação grosseira nos neutrófilos, queda plaquetária progressiva e esquizócitos no esfregaço compõe um conjunto de sinais que, integrados ao quadro clínico, orientam o reconhecimento precoce da sepse e de suas complicações. O tempo entre a coleta e a liberação do resultado tem impacto direto sobre a velocidade de início do tratamento antimicrobiano, que é o principal determinante da sobrevida nesses pacientes.

Referências

OLIVEIRA, Larissa Santana; ALCANTARA, Thiago Ruan de Lima. Atlas em hematologia: um guia visual para a identificação de células sanguíneas. 1. ed. Salvador: Oxente, 2025.

ZHANG, Wenping et al. The clinical value of hematological neutrophil and monocyte parameters in the diagnosis and identification of sepsis. Annals of Translational Medicine, v. 9, n. 22, p. 1680, 2021. 

ARAÚJO, Fernanda Martins da Silva. Alterações no hemograma nas infecções virais e bacterianas: uma revisão de literatura. 2023. 

MESQUITA, Mirta et al. Valor predictivo del hemograma en la sepsis neonatal. Pediatría (Asunción), v. 38, n. 1, p. 23-30, 2011.