Erros pré-analíticos no hemograma

A qualidade do hemograma depende de três fases distintas: a pré-analítica, a analítica e a pós-analítica. Entre essas, a fase pré-analítica é responsável pela maior proporção de erros laboratoriais, com estimativas que variam entre 60% e 70% de todos os erros identificados em laboratórios clínicos. 

No hemograma especificamente, os interferentes pré-analíticos são numerosos e podem falsear praticamente todos os parâmetros avaliados, gerando resultados que não refletem o estado real do paciente. Compreender esses interferentes, identificá-los e adotar medidas de controle é uma das responsabilidades mais práticas e impactantes do profissional de laboratório.

Os principais erros pré-analíticos e seus efeitos nos parâmetros do hemograma

Os erros pré-analíticos mais frequentes no hemograma são a amostra coagulada, a hemólise, o volume insuficiente e a identificação incorreta. Cada um desses erros produz efeitos distintos nos parâmetros analisados. A amostra coagulada impede a contagem adequada de plaquetas, gera microcoágulos que obstruem canais dos analisadores e pode produzir resultados falsamente baixos para leucócitos e plaquetas. A hemólise libera hemoglobina livre no plasma, interfere nas medições fotométricas e pode elevar falsamente a hemoglobina plasmática, além de reduzir artificialmente a contagem de hemácias.

O excesso de EDTA, anticoagulante utilizado no tubo para hemograma, provoca encarquilhamento celular: as hemácias sofrem alteração morfológica osmótica que reduz artificialmente o hematócrito e o VCM. Um tubo coletado com volume insuficiente de sangue apresenta proporção inadequada entre sangue e anticoagulante, resultando em efeito diluição com queda falsa de todos os parâmetros celulares. Esses erros, quando não identificados, geram laudos incorretos que podem determinar condutas clínicas inadequadas.

Interferentes que afetam parâmetros específicos do hemograma

Além dos erros de coleta, existem interferentes biológicos e técnicos que afetam parâmetros específicos. A pseudoplaquetopenia por EDTA, em que as plaquetas se agregam in vitro na presença desse anticoagulante, é um dos mais relevantes: o analisador pode contar os agregados como leucócitos ou simplesmente não os detecta, gerando plaquetopenia falsa. A confirmação exige recoleta em outrros anticoagulantes, como citrato de sódio ou heparina, além de nova observação do esfregaço.

A lipemia intensa, presente em amostras de pacientes com hipertrigliceridemia grave ou coletadas em estado pós-prandial, interfere nas medições fotométricas da hemoglobina e do CHCM, elevando-os artificialmente. A presença de crioaglutininas em pacientes com anemia hemolítica por anticorpos a frio causa agregação eritrocitária a temperaturas abaixo de 37°C, resultando em contagens falsamente baixas de hemácias e hematócrito, com VCM falsamente elevado. O aquecimento da amostra a 37°C antes da análise, geralmente corrige esse interferente.

Boas práticas na fase pré-analítica: o que o laboratório pode controlar

A prevenção de erros pré-analíticos exige protocolos claros e treinamento contínuo dos profissionais envolvidos na coleta, transporte e recebimento de amostras. O tempo máximo entre a coleta e a análise do hemograma não deve exceder quatro horas à temperatura ambiente; amostras refrigeradas podem ser analisadas em até 24 horas, com ressalvas para plaquetas e morfologia. A homogeneização adequada do tubo, por inversão suave imediatamente após a coleta, é indispensável para garantir a mistura uniforme do sangue com o anticoagulante.

O recebimento das amostras deve incluir inspeção visual sistemática: coágulos visíveis, hemólise macroscópica, lipemia e volume insuficiente são critérios de rejeição que devem ser aplicados com rigor. Além disso, o laboratório deve registrar e monitorar os indicadores de qualidade pré-analítica, como taxa de amostras rejeitadas e principais motivos de rejeição, para identificar tendências e implementar melhorias contínuas.

Referências

OLIVEIRA, Larissa Santana; ALCANTARA, Thiago Ruan de Lima. Atlas em hematologia: um guia visual para a identificação de células sanguíneas. 1. ed. Salvador: Oxente, 2025.

MORAIS, Raylla Pires Gonçalves et al. Interferências dos fatores pré-analíticos nos exames laboratoriais. Revista Interdisciplinar em Saúde, Cajazeiras, v. 10, p. 421-433, 2023. 

ALSHAGHDALI, Khalid et al. Detecting preanalytical errors using quality indicators in a hematology laboratory. Quality management in health care, v. 31, n. 3, p. 176, 2021.