Imagine o seguinte cenário: você está no seu plantão, concentrado na leitura de lâminas, quando algo chama sua atenção. Há presença aumentada de eritroblastos: Núcleo regular, de formato arredondado bem definido e possui cromatina bastante condensada. Dentre estas células, é perceptível que algumas ou raras são claramente eritroblastos, porém com morfologia totalmente incomum, ou seja é uma célula com displasia.
Lâmina apresentando eritroblasto displásico (Divisão celular).
O que é um eritroblasto displásico?
Os eritroblastos são células precursoras dos eritrócitos (glóbulos vermelhos) e fazem parte do processo normal de eritropoiese na medula óssea. No entanto, quando há alterações morfológicas que fogem do padrão esperado, dizemos que há displasia.
Um eritroblasto displásico pode apresentar:
- Núcleo anômalo – Bilobulado ou Hiperlobulado (mais de 1 núcleo), segmentado, em processo de mitose
- citoplasma anormal – citoplasma e núcleo em estágios distintos de desenvolvimento, citoplasma com traços de divisão.
Geralmente, encontramos essas células em condições hematológicas como síndromes mielodisplásicas (SMDs), anemias megaloblásticas e intoxicação por metais pesados.
O que fazer ao encontrar um eritroblasto displásico?
Ao identificar um eritroblasto displásico na lâmina, o analista clínico deve seguir algumas etapas essenciais:
- Excluir interferentes pré-analíticos: Um exemplo comum é a presença de células com morfologia anormal quando a amostra está envelhecida, deve-se sempre avaliar o contexto para evitar citações erradas.
- Presença de outros achados displásicos – Uma forma direta de reforçar a displasia dos eritroblastos, é pela presença de de outros achados displasia no esfregaço, seja na série vermelha, plaquetária ou leucocitária.
- quantificar o achado – Relatar no laudo a frequência da displasia. Independente de qual seja a displasia (1 ou mais), relatar “presença de displasia nos eritroblastos” (seguir padrão das observações do laboratório)
- Verificar histórico e dados clínicos do paciente – Algumas alterações podem ser transitórias ou induzidas por fatores externos, como quimioterapia ou deficiência de vitamina B12;
O papel do analista clínico vai muito além de apenas “bater o olho” e contar células. Identificar um eritroblasto displásico pode ser o primeiro passo para um diagnóstico importante. Por isso, nunca subestime o poder da morfologia hematológica e do aprendizado constante.

Referências:
Dacie, J. V., & Lewis, S. M. (2017). Practical Haematology. 12th ed. Elsevier.
Hoffbrand, A. V., Moss, P. A. H., & Pettit, J. E. (2019). Essential Haematology. 7th ed. Wiley Blackwell.
Rodak, B. F., Fritsma, G. A., & Keohane, E. M. (2020). Hematology: Clinical Principles and Applications. 5th ed. Elsevier.