A coqueluche é uma infecção respiratória aguda causada pela bactéria Bordetella pertussis, caracterizada principalmente por crises de tosse intensa e prolongada. Trata-se de uma doença de elevada transmissibilidade, com impacto significativo, sobretudo em lactentes e indivíduos não vacinados. Nesse contexto, o diagnóstico precoce torna-se essencial para o manejo clínico adequado e para o controle epidemiológico. Embora métodos específicos, como cultura e PCR, sejam considerados padrão-ouro, o hemograma se destaca como um exame complementar relevante no âmbito laboratorial.

Alterações hematológicas características da coqueluche
O hemograma na coqueluche apresenta alterações típicas que auxiliam na suspeita diagnóstica. Entre elas, destaca-se a leucocitose significativa, frequentemente superior a 20.000 leucócitos/mm³, associada à linfocitose absoluta, geralmente acima de 10.000 linfócitos/mm³.
Adicionalmente, observa-se predominância de linfócitos típicos, podendo representar grande parte do total leucocitário. Essa resposta hematológica é considerada característica da doença, especialmente na fase inicial.
Entretanto, é importante ressaltar que tais alterações podem variar conforme o estado vacinal e a faixa etária do paciente. Em indivíduos previamente imunizados ou em quadros atípicos, essas alterações podem ser menos evidentes ou até ausentes.
Papel do hemograma no diagnóstico laboratorial
No contexto laboratorial, o hemograma atua como exame complementar na investigação da coqueluche. Sua principal função é fornecer indícios que reforcem a suspeita clínica, sobretudo em cenários onde métodos confirmatórios ainda não foram realizados.
A presença concomitante de leucocitose e linfocitose constitui um achado sugestivo, sendo frequentemente utilizada como critério auxiliar na definição de casos suspeitos.
Contudo, o hemograma não possui caráter confirmatório isolado. Dessa forma, sua interpretação deve ser integrada aos dados clínicos e epidemiológicos, bem como a exames específicos, como cultura de secreção nasofaríngea e testes moleculares.

Aplicações práticas na rotina laboratorial
Na prática laboratorial, o hemograma apresenta vantagens importantes, como rapidez, baixo custo e ampla disponibilidade. Essas características o tornam uma ferramenta útil para triagem inicial, especialmente em serviços com recursos limitados.
Além disso, o exame contribui para o monitoramento da evolução do quadro clínico, permitindo acompanhar a resposta inflamatória ao longo do tempo. Em situações específicas, como em lactentes, valores elevados de leucócitos podem estar associados a maior gravidade, reforçando a importância da avaliação laboratorial contínua.
Por outro lado, é fundamental que o profissional de laboratório reconheça as limitações do exame. A ausência de linfocitose não exclui o diagnóstico, o que exige cautela na interpretação dos resultados.
Referências:
FERRONATO, Angela Esposito. Identificação de vírus respiratórios em lactentes internados com suspeita clínica de coqueluche. 2017. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.
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