Neutrófilos Hiposegmentados

A avaliação morfológica dos leucócitos no hemograma, especialmente dos neutrófilos, fornece informações valiosas sobre o estado funcional e maturacional das células da série branca. Além disso, dentre as alterações morfológicas que podem ser observadas, os neutrófilos hiposegmentados.

O que são neutrófilos hiposegmentados?

Assim, os neutrófilos, em condições normais, apresentam um núcleo multilobulado, com 3 a 4 lóbulos conectados por filamentos finos de cromatina. No entanto, os neutrófilos hiposegmentados são caracterizados por apresentarem núcleos com apenas 1 ou 2 lóbulos, muitas vezes em forma de bastão espessado ou arredondado. 

De fato, essa característica, por sua vez, é resultado de uma alteração no processo de segmentação nuclear, e pode indicar tanto alterações reativas quanto distúrbios hematológicos específicos.

Causas e condições associadas

Desse modo, a presença de neutrófilos hiposegmentados pode ser fisiológica, transitória ou patológica, dependendo do contexto clínico e laboratorial:

  1. Anomalia de Pelger-Huët (APH)
    Trata-se de uma anomalia congênita autossômica dominante, na qual os neutrófilos apresentam hipossegmentação nuclear de forma constante, mas com função celular preservada. Ademais, os núcleos se apresentam bilobulados, em forma de “óculos” ou haltere, alguns ainda podem apresentar núcleo semelhante ao formato de amendoim. 

Na sua manifestação homozigótica, tradicionalmente a hipossegmentação ocorre sem qualquer formação de segmentos, ou seja, o núcleo permanece arredondado. 

Assim, em ambos os casos,  a cromatina é mais condensada, diferente de um segmentado normal.

  1. Pseudo-anomalia de Pelger-Huët
    Assim, ao contrário da forma congênita, a pseudo-APH pode ocorrer em diversas situações clínicas, como:
    • Neoplasias mielodisplásicas
    • Leucemias mieloides agudas
    • Pós-quimioterapia ou radioterapia
    • Infecções graves (ex.: sepse)
    • Uso de certos medicamentos (ex.: imunossupressores)

Neste caso, os neutrófilos hiposegmentados estão geralmente acompanhados de disgranulopoese — ou seja, alterações citoplasmáticas como hipogranulação, vacuolização e anomalias tóxicas, que refletem um distúrbio na maturação da linhagem mieloide.

3. Alterações reativas
Ademais, em infecções agudas ou inflamações intensas, a medula óssea pode liberar neutrófilos hiposegmentados.

Diagnóstico diferencial

Nesse contexto, para interpretar corretamente a presença de neutrófilos hiposegmentados, é essencial considerar os seguintes fatores:

  • Proporção de células alteradas: Na APH, praticamente todos os neutrófilos são hiposegmentados. Já na pseudo-APH, a porcentagem é variável, mas geralmente não atinge mais que 50% dos segmentados.
  • Morfologia da cromatina: Na forma congênita, a cromatina é densa e madura; em estados displásicos, pode ser mais frouxa ou apresentar irregularidades.
  • Achados associados: Disgranulopoese, anomalias em outras linhagens (eritroide ou megacariocítica) e alterações no hemograma indicam quadros displásicos ou leucêmicos.

Importância clínica

Portanto, a detecção de neutrófilos hiposegmentados pode ser um sinal precoce de displasia mieloide, especialmente em pacientes com citopenias inexplicadas. Logo, sua presença deve levar à investigação de:

  • Neoplasias mielodisplásicas
  • Avaliação da medula óssea (mielograma e biópsia)
  • Citometria de fluxo e cariótipo, se necessário

Em contrapartida, em pacientes sem alterações hematológicas, com função normal dos neutrófilos e padrão familiar, a APH pode ser considerada uma variante benigna sem implicações clínicas.

Referências:

Pelger-Huët anomaly: an overview of the clinical and molecular aspects. Annals of Hematology, 2016. DOI: 10.1007/s00277-016-2774-1

Morphological findings in neutrophils and their role in the diagnosis of hematologic disorders. American Journal of Clinical Pathology, 2018. DOI: 10.1093/ajcp/aqy040

Pseudo-Pelger-Huët anomaly in myelodysplastic syndromes: A diagnostic challenge. British Journal of Haematology, 2020. DOI: 10.1111/bjh.16488