A presença de hemácias fragmentadas, também chamadas de esquizócitos, no hemograma é um achado morfológico de extrema importância clínica e diagnóstica.
Assim, esses fragmentos eritrocitários são indicativos de processos patológicos, frequentemente associados a síndromes microangiopáticas e outras emergências hematológicas que podem exigir intervenção rápida e precisa.
O que são esquizócitos?
Esquizócitos são fragmentos irregulares de hemácias resultantes da ruptura mecânica das células vermelhas do sangue. Eles apresentam formas variadas, que morfologicamente não se assemelham aos demais achados de poiquilocitose, distinguindo-se, portanto, das hemácias normais por sua forma alterada e fragmentada.

Formação e mecanismos fisiopatológicos
A fragmentação das hemácias ocorre por alguns mecanismos, um exemplo de fragmentação mecânica, acontece quando as hemácias passam por vasos sanguíneos onde há dano ou obstrução microvascular, geralmente devido à presença de depósitos fibrinosos ou placas trombóticas. Consequentemente, a passagem resulta em estresse mecânico e cisalhamento, levando à quebra das membranas celulares.
Dessa maneira, este fenômeno é característico das microangiopatias trombóticas, nas quais há formação patológica de microtrombos nas arteríolas e capilares, causando anemia hemolítica microangiopática.
Principais condições associadas à presença de esquizócitos
Púrpura trombótica trombocitopênica (PTT)
Caracterizada pela tríade clássica: anemia hemolítica microangiopática, trombocitopenia e disfunção orgânica. Além disso, a triagem diagnóstica se dá pela presença de esquizócitos no sangue periférico. Posteriormente, testes mais específicos são aplicados, como a identificação da redução da atividade da ADAMTS13. Proteína responsável pela quebra (clivação) do fator de von Willebrand (vWF), na deficiência desta proteína, ocorre formação de obstruções, que geram esquizócitos.
Coagulação intravascular disseminada (CID)
Nesse sentido, esta condição grave ocorre quando há ativação sistêmica e descontrolada da coagulação, levando ao consumo de fatores e plaquetas. Por isso, os esquizócitos são resultado da fragmentação das hemácias ao passar pelos microtrombos disseminados. Ademais, a CID está associada a infecções graves, trauma, câncer e complicações obstétricas.
Síndrome hemolítico-urêmica (SHU)
Mais comum em crianças, a SHU é caracterizada por insuficiência renal aguda, anemia hemolítica microangiopática e trombocitopenia. Logo, os esquizócitos indicam o dano vascular e a hemólise intravascular.
Outras causas
Além disso, próteses valvulares cardíacas podem causar fragmentação mecânica das hemácias. Igualmente, vasculites e estados hipertensivos severos também podem associar-se à presença de esquizócitos.
Diagnóstico laboratorial
Portanto, a avaliação morfológica do esfregaço sanguíneo é fundamental para detectar esquizócitos. Contudo, recomenda-se a contagem manual dos esquizócitos, pois o hemograma automatizado pode não identificá-los com precisão.
Ademais, outros exames de suporte incluem a dosagem de lactato desidrogenase (LDH), bilirrubinas, haptoglobina e testes de função renal, os quais são essenciais para a avaliação do grau de hemólise e da disfunção orgânica.
Importância clínica e manejo
Dessa forma, a presença de esquizócitos no hemograma sinaliza a necessidade de investigação para causas emergenciais, que em caso positivo, auxilia o diagnóstico precoce e a intervenção rápida, como plasmaférese na PTT ou manejo da CID. Por fim, manobras como estas são essenciais para a melhora do prognóstico e a redução da mortalidade.

Referências:
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