CORPOS DE DÖHLE E CORPÚSCULO DE MAY-HEGGLIN

Na hematologia, a identificação precisa de alterações morfológicas nas células sanguíneas é fundamental para o diagnóstico de diversas condições. Dentre essas alterações, os corpos de Döhle e os corpúsculos de May-Hegglin exigem atenção especial, pois, embora compartilhem semelhanças visuais, possuem origens, características e implicações clínicas distintas, que precisam ser cuidadosamente avaliadas para garantir um diagnóstico correto e uma compreensão completa do quadro clínico do paciente.

Fonte das imagens: Cellwiki.

CORPOS DE DÖHLE

Os corpos de Döhle são inclusões citoplasmáticas ovais, de coloração azul-acinzentada, formadas pela liquefação do retículo endoplasmático dos neutrófilos. Essas inclusões, geralmente localizadas na periferia das células, estão associadas a diversas condições, como, por exemplo, processos infecciosos e inflamatórios, queimaduras, gestação, uso de fatores estimulantes de colônia granulocítica e macrófagos (G-CSF e GM-CSF), além de síndromes mielodisplásicas (SMD).

Sua presença no esfregaço sanguíneo frequentemente é acompanhada de outras alterações morfológicas, como granulações tóxicas, vacuolização citoplasmática e leucocitose. Portanto, quando observados juntamente com essas alterações, os corpos de Döhle se tornam um indicativo sensível de doenças infecciosas ou inflamatórias.

Embora apresentem semelhanças morfológicas com os corpúsculos de May-Hegglin, os corpos de Döhle são inclusões transitórias e restritas aos neutrófilos, distinguindo-se pela associação com quadros reativos agudos.

Alterações hematológicas comuns associadas aos corpos de Döhle incluem leucocitose, neutrofilia, desvio à esquerda e granulações tóxicas nos neutrófilos.

COMO REPORTAR NO HEMOGRAMA: Presença de corpos de Döhle.

Corpos de Döhle. Fonte: Cellwiki.

CORPÚSCULO DE MAY-HEGGLIN

Os corpúsculos de May-Hegglin são inclusões citoplasmáticas de coloração azulada, localizadas na parede celular dos neutrófilos, mas também podem ser observadas em eosinófilos e basófilos, embora sejam mais difíceis de identificar nestas células devido à densidade dos grânulos.

Além disso, essas inclusões estão associadas a uma anomalia genética hereditária de caráter autossômico dominante, representando a destruição do retículo endoplasmático e contendo RNA. Sua presença está frequentemente relacionada à ocorrência de macroplaquetas, plaquetas gigantes e plaquetopenia.

Embora geralmente assintomática e sem leucocitose ou desvio à esquerda, a condição pode predispor a processos hemorrágicos devido a um discreto defeito na função plaquetária, caracterizado pela deficiência de PF3. O diagnóstico é confirmado por imunofluorescência para NM MHC-IIA nos neutrófilos.

COMO REPORTAR NO HEMOGRAMA: Presença de corpúsculo de May-Hegglin.

May-Hegglin em esfregaço sanguíneo. Fonte: CellWiki.

Para realizar uma diferenciação precisa entre os corpúsculos de Döhle e os corpúsculos de May-Hegglin, é crucial analisar o contexto clínico do paciente e não apenas as células isoladas. A interpretação deve considerar os achados laboratoriais em conjunto, levando em conta o quadro clínico do paciente.

Referências:

DA SILVA, Paulo Henrique et al. Hematologia laboratorial: teoria e procedimentos. Artmed Editora, 2015.

FAILACE. R.; FERNANDES, F. Hemograma: Manual de interpretação. 6° ed. Artmed. 2015.

MELO, Márcio Antonio Wanderley; SILVEIRA, Cristina Magalhães da Laboratório de Hematologia – Teorias, Técnicas e Atlas. 1° Ed. 288p. 2015.

NAOUM, F. A. Doenças que alteram os exames hematológicos. São Paulo: Atheneu, 2010.