Burkitt x Blastos

O diagnóstico diferencial entre linfoma de Burkitt e outras patologias hematológicas, como leucemias agudas, é desafiador. As células do linfoma de Burkitt podem ser confundidas com blastos no hemograma, levando a diagnósticos errôneos se não houver atenção aos detalhes. 

A análise precisa das características morfológicas dessas células, além do exame clínico e dos exames adicionais.

O Linfoma de Burkitt: Características Clínicas e Morfológicas

Em primeiro lugar, o linfoma de Burkitt é um tipo raro e altamente agressivo de linfoma não-Hodgkin, que ocorre predominantemente em crianças e adultos jovens. Assim, existem três subtipos principais: endêmico, esporádico e associado à imunossupressão. O subtipo endêmico está frequentemente associado ao vírus Epstein-Barr (EBV), e é mais prevalente em regiões tropicais, enquanto o subtipo esporádico pode ocorrer em qualquer parte do mundo, independentemente do histórico de infecção por EBV. 

Além disso, em pacientes imunocomprometidos, como aqueles infectados pelo HIV, o linfoma de Burkitt também pode se manifestar com maior frequência. Essas células têm uma proliferação extremamente rápida, o que contribui para o seu comportamento altamente agressivo.

Morfologicamente, as células de Burkitt se apresentam como linfócitos anômalos, com um núcleo grande, claro e cromatina fina e dispersa. Além disso, elas frequentemente exibem vacúolos citoplasmáticos, o que dá à célula um aspecto característico denominado “padrão em raios de roda”. De fato, os vacúolos também podem ser encontrados sobrepostos ao núcleo da célula. 

A Diferença entre Blastos e Linfócitos do Linfoma de Burkitt

Os linfócitos de Burkitt são linfócitos B que, por estarem mais maduros do que os blastos, apresentam uma morfologia distinta:


Morfologia Nuclear:

  • Linfócitos do Linfoma de Burkitt: Os linfócitos de Burkitt, embora anômalos, são linfócitos maduros. O núcleo é grande, arredondado ou levemente irregular, com cromatina fina e dispersa. A cromatina é mais condensada em comparação com os blastos, caracteristicamente ocorre a presença de vacúolos sobrepostos ao núcleo.
  • Blastos: São células imaturas que têm núcleos grandes, com cromatina frouxa, mas geralmente sem a presença de vacúolos. A cromatina dos blastos é menos condensada do que a dos linfócitos maduros, mas o núcleo geralmente tem uma borda mais regular, e o nucléolo é geralmente mais proeminente. 

Citoplasma:

Blastos: O citoplasma dos blastos é geralmente mais homogêneo. A coloração citoplasmática é mais uniformemente azulada, sem o padrão em estrela.

Linfócitos do Linfoma de Burkitt: Uma característica marcante dessas células é a presença de vacúolos citoplasmáticos, o que gera o padrão visual de “padrão em estrela”. Além disso, o citoplasma é de coloração basofílica, com áreas vacuoladas que são características desse tipo de linfoma.

Imunofenotipagem

A imunofenotipagem é essencial para a diferenciação entre linfoma de Burkitt e leucemias agudas. As células de Burkitt geralmente expressam marcadores de linfócitos B como CD19, CD20, CD10 e BCL6, além de um índice de proliferação elevado, com mais de 99% de Ki-67 positivo, o que caracteriza a alta taxa de proliferação dessas células.

Os blastos, por outro lado, podem expressar uma ampla gama de marcadores, dependendo da sua origem, sendo comumente positivos para marcadores hematopoéticos imaturos, como CD34 e HLA-DR.

 Linfócito anômalo de Burkitt  x Blasto

O Papel do Hemograma no Diagnóstico

De fato, o hemograma é uma ferramenta inicial para o diagnóstico, especialmente quando há suspeita de condições hematológicas, como linfoma de Burkitt ou leucemias agudas. No entanto, a simples observação das células no esfregaço sanguíneo pode levar a confusões, dado que os linfócitos de Burkitt podem se assemelhar aos blastos. Assim, para evitar esses erros, o analista deve combinar a análise morfológica com a história clínica, exames adicionais, e, especialmente, a imunofenotipagem.

Outros Detalhes

Além disso, em casos de linfoma de Burkitt, o rápido desenvolvimento clínico, com linfadenopatia, esplenomegalia e envolvimento de outros órgãos, pode fornecer pistas adicionais que orientam o diagnóstico. A medula óssea geralmente é hipercelular, com predomínio de linfócitos, o que também ajuda na distinção entre o linfoma de Burkitt e outras condições hematológicas.

Referências:

Swerdlow, S. H., et al. (2017). World Health Organization Classification of Tumours of Haematopoietic and Lymphoid Tissues. IARC Press.

Pileri, S. A., et al. (2013). The Morphological Diagnosis of Lymphomas: A Practical Approach. Journal of Clinical Pathology, 66(7), 541-554.

Connors, J. M. (2019). Lymphoma: Diagnosis and Treatment. Springer International Publishing.