A Velocidade de Hemossedimentação (VHS) é um exame laboratorial amplamente utilizado para mensurar a taxa de sedimentação dos eritrócitos. Trata-se de um teste simples, bastante sensível, porém pouco específico. Quando seus valores estão aumentados, podem indicar processos inflamatórios, infecciosos ou até mesmo condições malignas.
Além disso, a VHS possui importante papel no acompanhamento de doenças crônicas como um teste complementar. Portanto, compreender seus princípios, sua execução e seus fatores interferentes é essencial para garantir uma análise confiável no ambiente laboratorial.
Princípios da VHS e mecanismo de sedimentação
Os eritrócitos possuem carga negativa em sua membrana, o que gera repulsão entre as células, fenômeno conhecido como potencial zeta. Em condições normais, essa repulsão mantém as hemácias relativamente dispersas no plasma, resultando em uma sedimentação lenta e uniforme.
No entanto, alterações nas proteínas plasmáticas modificam esse comportamento. Substâncias como fibrinogênio e imunoglobulinas reduzem a repulsão entre os eritrócitos. Consequentemente, ocorre maior agregação celular, formando estruturas que sedimentam mais rapidamente.
Dessa forma, o aumento da VHS está diretamente relacionado à presença de alterações inflamatórias ou outras condições que interferem na composição plasmática.
Método de Westergren e padronização da análise
O método de Westergren é considerado o padrão-ouro para a medição da VHS, sendo recomendado pelo International Council for Standardization in Haematology (ICSH). Esse método garante maior reprodutibilidade e confiabilidade dos resultados.
Na prática, utiliza-se um tubo de Westergren com dimensões específicas. O sangue venoso é misturado com citrato de sódio a 3,8% na proporção de 1:4. Em seguida, a amostra deve permanecer em posição vertical e em repouso por uma hora. Após esse período, o resultado é expresso em milímetros por hora, correspondendo à altura da coluna de plasma separada das hemácias sedimentadas.
Embora esse seja o método mais utilizado, existem variações e adaptações. Entre elas, destacam-se o Westergren modificado, sistemas automatizados, tubos a vácuo e pipetas descartáveis. Essas alternativas mantêm o mesmo princípio, porém oferecem maior praticidade e, em alguns casos, redução de interferências técnicas.

Fonte: Hematologia laboratorial: teoria e procedimentos, 2016.
Fatores interferentes e interpretação dos resultados
A VHS pode ser influenciada por diversos fatores, o que reforça a necessidade de uma análise criteriosa. Entre os fatores técnicos, destacam-se a inclinação inadequada da pipeta, variações de temperatura, exposição à luz solar e movimentação durante o exame. Esses aspectos podem comprometer diretamente o resultado.
Além disso, fatores fisiológicos também exercem influência. Situações como gestação, ciclo menstrual e envelhecimento podem elevar a VHS, mesmo na ausência de doença. Paralelamente, fatores patológicos, como infecções, doenças inflamatórias crônicas, neoplasias e anemias, tendem a aumentar os valores. Por outro lado, condições como policitemia vera e algumas doenças hepáticas podem reduzi-los.
A morfologia eritrocitária também deve ser considerada. Em casos como a anemia falciforme, a alteração na forma das hemácias impede o empilhamento adequado, resultando em valores normais ou reduzidos de VHS, mesmo diante de inflamação.
Quanto à interpretação clínica, valores elevados, especialmente acima de 80 mm/h, sugerem processos inflamatórios importantes. No entanto, esse exame não deve ser analisado isoladamente. É fundamental correlacioná-lo com o contexto clínico e com outros exames laboratoriais, como o hemograma e a proteína C reativa.
Adicionalmente, a VHS é útil no monitoramento de doenças como artrite reumatoide e tuberculose. Ainda assim, existem situações atípicas, como indivíduos idosos saudáveis com valores moderadamente elevados ou doenças inflamatórias com VHS dentro da normalidade.

Referências:
MELO, Márcio Antonio Wanderley de; SILVEIRA, Cristina Magalhães da (org.). Laboratório de Hematologia: teorias, técnicas e atlas. 1. ed. Rio de Janeiro: Rubio, 2015.
SILVA, Paulo Henrique da et al. Hematologia laboratorial: teoria e procedimentos. 1. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
KRATZ, A. et al. ICSH recommendations for modified and alternate methods measuring the erythrocyte sedimentation rate. International Journal of Laboratory Hematology, v. 39, n. 5, p. 448-457, 2017. DOI: 10.1111/ijlh.12693.
DE OLIVEIRA GUIMARÃES, Adriana et al. Proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação na avaliação laboratorial de processos inflamatórios. Scire Salutis, v. 4, n. 1, p. 6-16, 2014.