Leucemia de Células Pilosas

A leucemia de células pilosas (LCP) é uma neoplasia rara das células B maduras do sistema linfoide, caracterizada pela presença de prolongamentos citoplasmáticos que conferem às células um aspecto típico descrito como “piloso”. Essa condição representa cerca de 2% de todas as leucemias e apresenta maior frequência no sexo masculino, com idade média ao diagnóstico em torno de 52 anos.

Trata-se de uma doença de evolução geralmente indolente, frequentemente diagnosticada a partir da identificação de citopenias em exames laboratoriais de rotina. Nesse contexto, a avaliação morfológica das células sanguíneas, associada à imunofenotipagem e à análise molecular, desempenha papel essencial na confirmação diagnóstica e no acompanhamento clínico.

Linfócitos Atípicos em HLC. Fonte Cellwiki


1. Aspectos clínicos e distribuição das células pilosas

A leucemia de células pilosas pode estar associada a diversas condições, incluindo doenças autoimunes e exposições ambientais específicas, como poeira de carvão. Além disso, histórico familiar de doenças linfoproliferativas também pode estar presente em alguns pacientes.

As células pilosas apresentam distribuição característica no organismo, concentrando-se principalmente na medula óssea, no sangue periférico, na polpa vermelha do baço e nos sinusoides hepáticos. Essa distribuição está relacionada à expressão diferencial de moléculas de adesão e receptores celulares, que influenciam o padrão de migração dessas células.

Clinicamente, a doença pode permanecer assintomática por longos períodos. Entretanto, quando presentes, os sinais e sintomas mais comuns incluem:

  • Citopenias assintomáticas
  • Esplenomegalia (observada na maioria dos casos)
  • Fadiga e astenia
  • Sudorese noturna e perda de peso
  • Desconforto abdominal

Em situações menos frequentes, podem ocorrer complicações como ruptura esplênica espontânea, lesões ósseas ou manifestações cutâneas infiltrativas.


2. Características morfológicas e importância da análise microscópica

A identificação morfológica das células pilosas constitui um dos principais elementos para a suspeita diagnóstica da LCP. Essas células são descritas como linfócitos anormais com núcleo oval relativamente grande e citoplasma azul-acinzentado, apresentando projeções citoplasmáticas irregulares e finas.

Um aspecto clássico frequentemente relatado é a aparência semelhante a um “ovo frito”, caracterizada por núcleo central arredondado e citoplasma claro e alargado. Esse padrão morfológico é facilmente reconhecido em esfregaços de sangue periférico e em amostras de medula óssea, sendo fundamental para diferenciar a LCP de outras neoplasias linfoproliferativas.

Além disso, a análise microscópica permite avaliar o grau de infiltração celular e monitorar a evolução da doença ao longo do tempo, contribuindo para a avaliação da resposta terapêutica.


3. Imunofenotipagem e diagnóstico molecular na leucemia de células pilosas

A confirmação diagnóstica da leucemia de células pilosas baseia-se na integração entre achados morfológicos, imunofenotípicos e moleculares. A citometria de fluxo permite identificar marcadores específicos que caracterizam essa neoplasia e diferenciam-na de outras doenças hematológicas.

Entre os principais marcadores imunofenotípicos utilizados no diagnóstico da LCP, destacam-se:

  • CD11c
  • CD25
  • CD103
  • CD123

A presença simultânea desses marcadores compõe o escore imunológico utilizado para confirmação diagnóstica. Além disso, a biópsia de medula óssea permite avaliar o grau de infiltração tumoral e identificar alterações genéticas relevantes.

Um achado molecular importante na leucemia de células pilosas é a mutação somática BRAF V600E, frequentemente detectada por métodos de biologia molecular. Essa alteração genética não apenas auxilia na confirmação diagnóstica, mas também possui implicações prognósticas e terapêuticas.


Referências:

MENEZES, L. W. A. et al. LEUCEMIA DE CÉLULAS PILOSAS EM PACIENTE IDOSO: RELATO DE CASO. Hematology, Transfusion and Cell Therapy, v. 46, p. S323, 2024.

MAITRE, E.; CORNET, E.; TROUSSARD, X. Hairy cell leukemia: 2020 update on diagnosis, risk stratification, and treatment. American Journal of Hematology, Hoboken, v. 94, n. 12, p. 1413-1422, dez. 2019. DOI: 10.1002/ajh.25653. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31591741/. Acesso em: 16 maio 2024.

URIBE-FRANCO, R. C.; MILÃO-SALVATIERRA, A. I. Leucemia de células peludas: comunicação de um caso como parte da abordagem de fibra de origem desconhecida. Revista Hematologia Mexicana, v. 22, n. 3, p. 181-188, 2021.

Atlas de hematologia: clínica hematológica ilustrada/ Therezinha Ferreira Lorenzi – Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006