A Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA) é uma neoplasia hematológica caracterizada pela proliferação anormal de linfoblastos na medula óssea, no sangue periférico e em outros tecidos. Nas últimas décadas, os avanços terapêuticos proporcionaram aumento significativo nas taxas de remissão completa. Entretanto, a persistência de pequenas quantidades de células leucêmicas após o tratamento inicial, denominada Doença Residual Mínima (DRM), tem se consolidado como um dos principais fatores prognósticos na condução clínica da doença.
Nesse cenário, o laboratório assume papel fundamental, uma vez que a detecção da DRM exige métodos de alta sensibilidade e interpretação técnica especializada. Assim, a monitorização laboratorial contínua permite avaliar a resposta terapêutica e orientar decisões clínicas de forma mais precisa.

Conceito e importância prognóstica da Doença Residual Mínima
A Doença Residual Mínima refere-se à presença de uma pequena quantidade de células leucêmicas remanescentes após o tratamento, que não são detectáveis por métodos convencionais, como a avaliação morfológica por microscopia óptica. Apesar de invisíveis em exames rotineiros, essas células mantêm potencial proliferativo e podem levar à recaída da doença.
Além disso, a detecção da DRM possui elevado valor prognóstico. Pacientes que apresentam DRM positiva após a indução da remissão apresentam maior risco de recidiva e, consequentemente, pior desfecho clínico quando comparados àqueles com DRM negativa. Dessa forma, a avaliação da DRM tornou-se um marcador essencial para estratificação de risco e planejamento terapêutico na LLA.
Métodos laboratoriais para detecção da DRM
A identificação da Doença Residual Mínima requer técnicas laboratoriais com elevada sensibilidade analítica. Entre os métodos disponíveis, destacam-se a citometria de fluxo multiparamétrica, a reação em cadeia da polimerase quantitativa (qPCR) e, mais recentemente, o sequenciamento de nova geração (NGS).
No contexto brasileiro, a citometria de fluxo multiparamétrica representa o método mais acessível e amplamente utilizado para avaliação da DRM. Esse método permite identificar assincronismos de maturação e combinações específicas de antígenos de superfície presentes exclusivamente nas células leucêmicas.
Adicionalmente, a técnica de PCR possibilita a detecção de rearranjos gênicos específicos, como aqueles relacionados aos genes de imunoglobulinas e receptores de células T, bem como transcritos quiméricos resultantes de translocações cromossômicas. Portanto, a escolha do método deve considerar fatores como disponibilidade tecnológica, custo e objetivo clínico da investigação.

Aplicações da monitorização da DRM na rotina laboratorial
Na rotina laboratorial, a monitorização seriada da Doença Residual Mínima permite acompanhar a resposta ao tratamento ao longo do tempo. Essa avaliação contínua contribui para identificar precocemente pacientes com risco elevado de recaída, antes mesmo do aparecimento de manifestações clínicas evidentes.
Além disso, os resultados laboratoriais relacionados à DRM auxiliam na tomada de decisões terapêuticas. Pacientes com persistência de DRM podem necessitar de intensificação do tratamento, uso de terapias-alvo específicas ou indicação de transplante de células-tronco hematopoéticas.
Consequentemente, o laboratório não atua apenas no diagnóstico inicial da LLA, mas também no monitoramento da eficácia terapêutica e na avaliação prognóstica, desempenhando papel estratégico na assistência ao paciente onco-hematológico.
Referências:
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Naoum, Flávio Augusto Doenças que alteram os exames hematológicos / Flávio Augusto Naoum. – 2. ed. – Rio de Janeiro: Atheneu, 2017
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