COVID-19 e Trombose

Desde o surgimento da pandemia causada pelo SARS-CoV-2, diversos estudos têm demonstrado que a COVID-19 não se limita apenas a uma infecção respiratória. Pelo contrário, a doença apresenta caráter sistêmico e pode desencadear alterações significativas no sistema de coagulação. Nesse sentido, um dos principais achados clínicos observados em pacientes hospitalizados é o aumento do risco de eventos trombóticos, como trombose venosa profunda e embolia pulmonar.

Além disso, a resposta inflamatória intensa associada à infecção viral contribui para alterações hematológicas e laboratoriais importantes, que auxiliam tanto na compreensão da fisiopatologia quanto no acompanhamento clínico dos pacientes. Dessa forma, o laboratório clínico desempenha papel essencial na identificação precoce dessas alterações, permitindo uma avaliação mais precisa da gravidade da doença e do risco trombótico. Portanto, compreender os principais achados laboratoriais relacionados à trombose em pacientes com COVID-19 é fundamental para profissionais da área da saúde e, especialmente, para o contexto da medicina laboratorial.

Mecanismos fisiopatológicos da trombose na COVID-19

Inicialmente, é importante destacar que a COVID-19 pode desencadear um estado de hipercoagulabilidade. Esse processo ocorre, principalmente, devido à intensa resposta inflamatória provocada pelo vírus, que leva à ativação do endotélio vascular, das plaquetas e do sistema de coagulação.

Além disso, a infecção pelo SARS-CoV-2 está associada à chamada “tempestade inflamatória”, caracterizada pela liberação exacerbada de citocinas pró-inflamatórias. Consequentemente, esse processo inflamatório contribui para a ativação da cascata de coagulação e para a formação de trombos na microcirculação e em vasos de maior calibre.

Adicionalmente, a lesão endotelial causada pelo vírus também favorece o desenvolvimento de fenômenos trombóticos. Dessa maneira, a combinação entre inflamação sistêmica, disfunção endotelial e alterações na coagulação cria um cenário propício para complicações tromboembólicas em pacientes com COVID-19.

Principais marcadores laboratoriais associados à trombose

No contexto laboratorial, diversos exames são utilizados para monitorar alterações da coagulação em pacientes infectados pelo SARS-CoV-2. Entre os principais marcadores, destaca-se o D-dímero, cuja elevação está frequentemente associada ao aumento do risco de eventos trombóticos e à pior evolução clínica da doença.

Além disso, alterações em parâmetros como tempo de protrombina (TP), tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPa) e níveis de fibrinogênio também podem ser observadas. Em muitos casos, pacientes com COVID-19 apresentam aumento do fibrinogênio e prolongamento moderado de alguns tempos de coagulação, refletindo o estado pró-trombótico induzido pela inflamação sistêmica.

Outro achado laboratorial relevante envolve alterações no hemograma, como linfopenia e, em alguns casos, trombocitopenia. Essas alterações podem estar associadas à resposta inflamatória do organismo e ao consumo de componentes da coagulação, especialmente em quadros mais graves da doença.

Assim, a avaliação integrada desses parâmetros laboratoriais permite identificar precocemente alterações hemostáticas, e auxiliar na estratificação de risco dos pacientes.

Importância do monitoramento laboratorial no manejo clínico

Diante da associação entre COVID-19 e eventos trombóticos, o monitoramento laboratorial tornou-se uma ferramenta indispensável no manejo clínico desses pacientes. Nesse sentido, a análise periódica de marcadores de coagulação possibilita acompanhar a evolução do quadro clínico e identificar precocemente sinais de agravamento.

Além disso, os resultados laboratoriais auxiliam na tomada de decisões terapêuticas, incluindo a indicação de anticoagulação profilática ou terapêutica em pacientes com maior risco trombótico. Consequentemente, o laboratório clínico passa a exercer papel estratégico no suporte à equipe médica, contribuindo para intervenções mais rápidas e direcionadas.

Ademais, o acompanhamento contínuo dos parâmetros laboratoriais também permite avaliar a resposta ao tratamento e identificar possíveis complicações associadas à coagulação, favorecendo um cuidado mais seguro e eficaz.

Referências:

BARBOSA, João Victor Carvalho et al. Trombose arterial em microcirculação pós-Covid 19: Relato de caso. Research, Society and Development, v. 10, n. 4, p. e50410413857-e50410413857, 2021.
GOMES, L. N. L. et al. COVID-19 e sua relacão com o desenvolvimento da trombose. Hematology, Transfusion and Cell Therapy, v. 42, p. 525, 2020.
AZEVEDO, M. V. C. et al. Repercussões hematológicas na infecção por covid-19. Hematology, Transfusion and Cell Therapy, v. 42, p. 555, 2020.