Linfoma BIA-ALCL

O linfoma anaplásico de grandes células associado a implantes mamários (BIA-ALCL) ganhou maior visibilidade após o caso da influenciadora Evelin Camargo, o que contribuiu para ampliar o debate sobre essa neoplasia clínica rara. Entretanto, para além da repercussão midiática, torna-se fundamental compreender esse linfoma sob a ótica laboratorial, uma vez que o diagnóstico precoce e o adequado acompanhamento dependem diretamente da integração entre dados clínicos, citopatológicos, histopatológicos e imunofenotípicos. Assim, o entendimento dos mecanismos fisiopatológicos e dos métodos diagnósticos é essencial para a prática laboratorial qualificada.

Aspectos fisiopatológicos e características gerais

O BIA-ALCL é uma neoplasia linfoproliferativa rara, que se desenvolve predominantemente no espaço periprotético de implantes mamários. De modo geral, apresenta-se sob a forma de derrame seroso tardio, massa capsular ou ambas as manifestações. Esse linfoma não se origina do tecido mamário propriamente dito, mas sim do microambiente inflamatório crônico estabelecido ao redor do implante.

Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento dessa neoplasia, destacando-se a estimulação antigênica persistente, a formação de biofilmes bacterianos e a resposta imunológica prolongada. Além disso, a superfície texturizada dos implantes parece exercer papel relevante na patogênese, favorecendo maior área de contato e, consequentemente, maior estímulo inflamatório. Dessa forma, o ambiente periprotético torna-se propício à ativação linfocitária crônica, o que pode culminar na transformação neoplásica.

Achados laboratoriais e diagnóstico citopatológico

No contexto laboratorial, a análise do líquido periprotético constitui etapa essencial para o diagnóstico inicial. O material aspirado geralmente apresenta elevada celularidade, composta por grandes células pleomórficas, com núcleos irregulares, nucléolos evidentes e citoplasma abundante. Frequentemente, observam-se figuras mitóticas, além de fundo inflamatório variável.

A citologia desempenha papel central na triagem diagnóstica, sobretudo quando associada à imunocitoquímica. A positividade para CD30 é um achado característico e indispensável para a confirmação diagnóstica, enquanto marcadores de linhagem T podem apresentar expressão variável. Em contrapartida, a negatividade para ALK (Anaplastic Lymphoma Kinase) auxilia na diferenciação em relação a outras variantes de linfoma anaplásico de grandes células.

Adicionalmente, a avaliação histopatológica da cápsula periprotética permite identificar padrões de infiltração neoplásica, que podem variar desde crescimento superficial até invasão mais profunda. Assim, a correlação entre citologia, histologia e imunofenotipagem torna-se imprescindível para a definição diagnóstica precisa.

Importância da imunofenotipagem e monitoramento laboratorial

A imunofenotipagem, realizada por imunohistoquímica ou citometria de fluxo, constitui ferramenta essencial para caracterização do BIA-ALCL. A expressão intensa e difusa de CD30, associada à ausência de ALK, confirma o perfil típico dessa neoplasia. Além disso, marcadores como CD3, CD4 e CD43 podem auxiliar na identificação da linhagem celular envolvida.

No acompanhamento clínico, os exames laboratoriais assumem papel relevante na detecção precoce de recidivas e no monitoramento da resposta terapêutica. A análise seriada de líquidos periprotéticos, associada à avaliação histopatológica quando indicada, permite identificar precocemente alterações suspeitas. Ademais, exames hematológicos de rotina auxiliam na avaliação do estado geral do paciente, especialmente durante o tratamento sistêmico.

Referências

LONGO, Benedetto et al. Clinical recommendations for diagnosis and treatment according to current updated knowledge on BIA-ALCL. The Breast, v. 66, p. 332-341, 2022.


MOLON, A. C. et al. LINFOMA ANAPLÁSICO DE GRANDES CÉLULAS ALK NEGATIVO RELACIONADO A PRÓTESE MAMÁRIA: UM RELATO DE CASO. Hematology, Transfusion and Cell Therapy, v. 47, p. 104733, 2025.


DA COSTA SILVA, Ana Clara et al. Linfoma anaplásico de grandes células associado a implante mamário: uma revisão narrativa. Revista Eletrônica Acervo Saúde, v. 12, n. 11, p. e4767-e4767, 2020.