Hemograma na Epilepsia

A epilepsia é uma condição neurológica caracterizada pela ocorrência de crises epilépticas recorrentes, resultantes de descargas elétricas anormais no cérebro. Embora tradicionalmente compreendida sob a perspectiva neurológica, evidências recentes demonstram que processos sistêmicos, especialmente inflamatórios, exercem influência relevante em sua fisiopatologia. Nesse contexto, a avaliação hematológica emerge como uma ferramenta importante para compreender mecanismos associados ao risco, à evolução e às manifestações clínicas da epilepsia.

Além disso, alterações em células sanguíneas periféricas e em índices derivados do hemograma têm sido associadas à resposta inflamatória sistêmica, o que reforça a importância da correlação entre epilepsia e parâmetros hematológicos.

Epilepsia, Convulsões Febris e Resposta Sistêmica

As convulsões febris representam a forma mais comum de convulsão na infância e ocorrem, predominantemente, em crianças entre 6 meses e 5 anos de idade, geralmente associadas a quadros febris decorrentes de infecções, sobretudo virais. Embora, na maioria dos casos, sejam eventos benignos e autolimitados, esses episódios evidenciam a relação entre febre, inflamação e excitabilidade neuronal.

A imaturidade do cérebro infantil contribui para essa predisposição, uma vez que os neurônios apresentam maior excitabilidade e o sistema inibitório ainda não está completamente desenvolvido. Esse desequilíbrio entre mecanismos excitatórios e inibitórios favorece descargas elétricas anormais durante estados inflamatórios sistêmicos, como aqueles acompanhados de febre.

Assim, desde a infância, observa-se uma interação entre processos inflamatórios sistêmicos e atividade convulsiva, o que estabelece um elo inicial entre alterações biológicas periféricas e manifestações neurológicas.

Marcadores Hematológicos e Inflamatórios na Epilepsia

A análise hematológica permite a avaliação de células inflamatórias circulantes, como neutrófilos, linfócitos, monócitos e plaquetas. A partir desses parâmetros, são derivados índices imunoinflamatórios que refletem o estado inflamatório sistêmico do indivíduo.

Entre esses indicadores, destacam-se a razão neutrófilo-linfócito (NLR), a razão linfócito-monócito (LMR), a razão plaqueta-linfócito (PLR) e o índice inflamatório sistêmico (SII). Esses marcadores são calculados com base em dados do hemograma e permitem uma avaliação integrada da resposta inflamatória.

Esses índices têm sido utilizados como exposições para investigar associações longitudinais com o desenvolvimento de epilepsia, uma vez que a inflamação sistêmica pode influenciar a excitabilidade neuronal, a integridade vascular cerebral e processos neurobiológicos envolvidos na gênese das crises epilépticas.

 Evidências Epidemiológicas e Associação com o Risco de Epilepsia

Estudos populacionais de grande escala demonstram que alterações em marcadores hematológicos inflamatórios estão associadas ao risco futuro de epilepsia. A análise longitudinal desses parâmetros, ajustada para variáveis demográficas, comportamentais e clínicas, permite identificar associações independentes entre inflamação sistêmica e ocorrência da doença.

Além disso, análises de sensibilidade indicam que essa relação persiste mesmo após o controle de condições clínicas que podem influenciar as contagens sanguíneas, como doenças cardiovasculares e inflamatórias. A estratificação por idade e sexo também revela que essas associações podem variar conforme características individuais.

Portanto, os achados reforçam a hipótese de que a inflamação sistêmica, refletida por alterações hematológicas periféricas, desempenha papel relevante no desenvolvimento e na progressão da epilepsia.

Referências bibliográficas

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TOLEDO, Alice Santos et al. Epilepsia: uma revisão da literatura. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 10, n. 5, p. 3419-3428, 2024.


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