A leucemia das células plasmáticas constitui uma neoplasia hematológica rara e de evolução agressiva, definida pela presença significativa de plasmócitos circulantes no sangue periférico. Nesse cenário, o hemograma assume papel central na suspeita inicial da doença, especialmente em ambientes laboratoriais. Portanto, a análise criteriosa dos parâmetros hematológicos, associada à avaliação morfológica, torna-se essencial para o reconhecimento precoce dessa alteração, tanto em sua forma primária quanto secundária ao mieloma múltiplo.

Alterações eritrocitárias e plaquetárias no hemograma
Inicialmente, o hemograma revela, de forma consistente, anemia normocítica e normocrômica, decorrente da substituição medular por células plasmáticas neoplásicas. Além disso, a redução da eritropoese é frequentemente agravada por insuficiência renal e inflamação sistêmica. Em paralelo, observa-se trombocitopenia progressiva, resultante do comprometimento da megacariopoese. Consequentemente, esses achados refletem falência medular avançada e contribuem para o risco aumentado de sangramentos, aspecto relevante na avaliação clínica e laboratorial.
Leucograma e presença de plasmócitos circulantes
No leucograma, a característica mais marcante é a presença elevada de plasmócitos no sangue periférico, frequentemente ultrapassando os critérios diagnósticos estabelecidos. Ademais, pode haver leucocitose ou leucopenia, dependendo do grau de infiltração medular e da resposta inflamatória associada. Do ponto de vista morfológico, os plasmócitos circulantes apresentam citoplasma basofílico intenso, núcleo excêntrico e cromatina condensada, podendo exibir nucléolos evidentes em formas mais imaturas. Dessa forma, a revisão manual do esfregaço sanguíneo é indispensável, visto que analisadores automatizados podem classificar essas células de maneira inadequada.
Correlação do hemograma com exames complementares
Além das alterações quantitativas, o hemograma deve ser interpretado em conjunto com achados imunofenotípicos e citogenéticos. A detecção de plasmócitos circulantes no esfregaço direciona a necessidade de citometria de fluxo, permitindo a confirmação da clonalidade celular. Ademais, alterações hematológicas graves costumam correlacionar-se com perfis genéticos de alto risco, reforçando o caráter agressivo da doença. Assim, o papel do analista clínico estende-se além da liberação de resultados, contribuindo ativamente para a condução diagnóstica adequada.
Referências:
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