Corpúsculos de Pappenheimer

Os corpúsculos de Pappenheimer são inclusões eritrocitárias, pequenas, de coloração basofílica e morfologia variada. Essas inclusões localizam-se, com maior frequência, na periferia dos eritrócitos, próximas à membrana celular, podendo aparecer isoladas ou organizadas em pequenos agrupamentos.

Do ponto de vista estrutural, observamos que os corpúsculos de Pappenheimer são constituídos por material férrico, geralmente associado a agregados de ferritina, fragmentos mitocondriais ou resíduos fagossômicos. Sua presença reflete alterações no metabolismo do ferro ou falhas nos mecanismos celulares de remoção dessas inclusões durante a maturação eritrocitária.

Morfologicamente, podem ser facilmente confundidos com precipitados de coloração, corpos de Howell-Jolly pequenos ou outras inclusões eritrocitárias. Sendo assim, para uma identificação mais precisa,  pde ser utilizada a coloração de Perls (Azul da Prússia) permitindo a diferenciação precisa dessas estruturas. Neste caso os pequenos grânulos são chamados de siderossomos.

Condições clínicas associadas aos corpúsculos de Pappenheimer

A identificação de corpúsculos de Pappenheimer (CPP) no sangue periférico não ocorre de forma isolada; ao contrário, geralmente associamos esse achado a condições clínicas específicas, frequentemente relacionadas a distúrbios da eritropoiese ou do metabolismo do ferro.

Anemia sideroblástica

Na anemia sideroblástica, ocorre um defeito na incorporação do ferro à molécula de hemoglobina, o que leva ao acúmulo intracelular de ferro nos precursores eritroides. Por consequência, esse ferro excedente pode persistir nos eritrócitos maduros, manifestando-se como CPP no esfregaço sanguíneo. Dessa forma, a presença dessas inclusões reflete diretamente a ineficácia da eritropoiese e o desequilíbrio do metabolismo férrico.

Síndromes mielodisplásicas (SMD)

Nas síndromes mielodisplásicas, a eritropoiese ineficaz é uma condição comum, as alterações na maturação eritroide favorecem a retenção de ferro intracelular, levando à formação dos corpúsculos. A visualização de CPP pode, portanto, representar um marcador morfológico adicional de displasia eritroide, especialmente quando associada a outros achados hematológicos sugestivos de SMD.

Hemólise crônica

Em situações de hemólise crônica, o aumento contínuo da destruição eritrocitária promove inicialmente maior reciclagem de ferro. Sendo assim, essa dinâmica resulta em sobrecarga intracelular de ferro, especialmente quando os mecanismos de reutilização e armazenamento se encontram alterados. Dessa forma, parte desse ferro permanece nos eritrócitos circulantes e se manifesta sob a forma de CPP.

Sobrecarga de ferro transfusional

Pacientes submetidos a transfusões sanguíneas frequentes, como ocorre nas anemias crônicas dependentes de transfusão, apresentam, portanto, risco elevado de sobrecarga de ferro.

Esplenectomia

O baço exerce papel fundamental na remoção de inclusões eritrocitárias e na filtragem de eritrócitos anormais. Após a esplenectomia, o mecanismo de depuração é perdido, permitindo que CPP permaneçam circulantes. Assim, sua presença em pacientes esplenectomizados é um achado relativamente comum e esperado, sem necessariamente indicar uma alteração primária da eritropoiese.

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Referências

OLIVEIRA, Larissa Santana; ALCANTARA, Thiago Ruan de Lima. Atlas em hematologia: um guia visual para a identificação de células sanguíneas. 1. ed. Salvador: Oxente, 2025.

Zago, M. A., et al. “Tratado de Hematologia”. Editora Atheneu, 2013.

Wallach, J. M. “Interpretation of Diagnostic Tests”. 10ª edição, Lippincott Williams & Wilkins, 2015.