Quimioterapia: Quando o tratamento também pode causar novos problemas no sangue

Muitas pessoas acreditam que a quimioterapia atinge apenas as células cancerígenas. No entanto, esse tratamento também afeta células normais, especialmente aquelas que se dividem rapidamente, como as da medula óssea. Por isso, além de combater o câncer, a quimioterapia pode provocar alterações no hemograma, causar citopenias e, em alguns casos, até favorecer o surgimento de novos distúrbios hematológicos, como neoplasias mielodisplásicas ou leucemias secundárias.

O que acontece durante a quimioterapia?

Durante a quimioterapia, o primeiro impacto costuma aparecer de forma transitória, gerando a queda nas células do sangue. Esse período, conhecido como nadir, ocorre entre 7 e 10 dias após cada ciclo, quando o risco de infecção e sangramento é maior. Assim, o hemograma se torna um aliado importante, pois revela neutropenia, anemia e plaquetopenia que precisam de acompanhamento de perto.

A longo prazo é necessária maior atenção, isso porque algumas drogas quimioterápicas, como agentes alquilantes e inibidores da topoisomerase II, podem provocar lesões no DNA das células-tronco hematopoéticas. Ao longo dos anos, essas lesões podem gerar clones anormais e levar ao aparecimento de distúrbios como a neoplasia mielodisplásica e a leucemia mieloide aguda.

Hemograma na quimioterapia

O hemograma, nesse cenário, é fundamental para identificar sinais de alerta. Entre eles, destacam-se citopenias persistentes, aumento do volume corpuscular médio (VCM), presença de células displásicas e, eventualmente, blastos circulantes. Esses achados devem sempre ser correlacionados com a história clínica do paciente, pois podem indicar que a medula está sofrendo consequências tardias da terapia.

Esfregaço sanguíneo com presença de blastos

Conclusão

Portanto, embora a quimioterapia seja essencial no tratamento do câncer, ela não atua apenas sobre as células doentes. O hemograma mostra, tanto no curto quanto no longo prazo, que a medula óssea também é atingida. Reconhecer esses sinais precocemente é fundamental para orientar a conduta clínica e garantir o melhor cuidado ao paciente.

Referências:

  • National Cancer Institute (NCI). PDQ® Adult Acute Myeloid Leukemia Treatment. Bethesda, MD: National Cancer Institute. Atualizado em 2025.
  • Godley LA, Larson RA. Therapy-related myeloid leukemia. Semin Oncol. 2008;35(4):418-429. doi:10.1053/j.seminoncol.2008.04.014
  • American Cancer Society. Neutropenia (Low White Blood Cell Counts). 2024.