Monócitos Displásicos: Aspectos Morfológicos e Relato no Hemograma

A análise morfológica das células sanguíneas no hemograma ainda é um pilar fundamental da hematologia diagnóstica, mesmo em tempos de citometria de fluxo e técnicas moleculares avançadas. Nesse sentido, entre as alterações celulares que podem surgir no esfregaço periférico, os monócitos displásicos representam um achado que, embora pouco frequente, pode ter importância diagnóstica em situações específicas. Portanto, o reconhecimento, a descrição adequada e o contexto clínico tornam-se indispensáveis para evitar interpretações equivocadas.

O que são Monócitos Displásicos?

Os monócitos displásicos são definidos como monócitos que apresentam alterações morfológicas nucleares ou citoplasmáticas incompatíveis com sua maturação normal. Assim, as alterações mais frequentemente descritas incluem:

  • núcleo segmentado, os monócitos são mononucleares, portanto a presença de segmentação de núcleo é um achado atípico.
  • hipergranulação, a granulação visível dos monócitos é delicada, com aspecto de poeira no citoplasma, a displasia se apresenta com granulação grosseira e azurófila, semelhante a chamada “granulação tóxica” nos neutrófilos. 

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Monócito displásico

Dessa forma, tais alterações não correspondem a processos fisiológicos normais, quando presentes, devem despertar a atenção do analista.

Significado Clínico

A presença de monócitos displásicos está geralmente associada às neoplasias mielodisplásicas (NMD), neoplasias hematológicas e estados reacionais graves, como em algumas infecções ou quadros inflamatórios crônicos. Entretanto, quando aparecem de maneira isolada em indivíduos sem outras alterações hematológicas, o analista deve tomar cuidado ao relatar essas alterações, e verificar principalmente se não se trata de uma amostra envelhecida e que ficou por muito tempo em contato com o EDTA.

Por esse motivo, torna-se necessário correlacionar o achado com:

  • a história clínica do paciente;
  • outros achados displásicos (em neutrófilos, eritrócitos e plaquetas);
  • dados laboratoriais complementares (como citometria de fluxo, cariótipo e painéis moleculares).

Como Relatar no Hemograma

Em relação ao hemograma, o relatório deve ser objetivo. Recomenda-se citar seu achado apenas pela alteração qualitativa. Assim, o modelo mais recomendado é:

“Presença de monócitos displásicos”.

Monócito displásico a esquerda e um blasto a direito

Considerações Práticas

De modo geral, os achados podem ser interpretados conforme o contexto. Quando isolados em pacientes normais, devem averiguar se a amostra está envelhecida, a fim de evitar alarme desnecessário. Por outro lado, quando são repetitivos e consistentes, merecem relato formal e eventual recomendação de investigação adicional. 

Referências:

Bain, B. J. (2015). Blood Cells: A Practical Guide. 5th ed. Wiley-Blackwell.

Arber, D. A., et al. (2022). WHO Classification of Tumours of Haematopoietic and Lymphoid Tissues, 5th Edition. IARC.

Rodak, B. F., Fritsma, G. A., Doig, K. (2021). Hematology: Clinical Principles and Applications. 6th ed. Elsevier.