As anemias ferropriva e das doenças crônicas são dois tipos distintos de anemias, cada uma com mecanismos patológicos e achados laboratoriais característicos.

1. Anemia Ferropriva
A anemia ferropriva é a forma mais comum de anemia no mundo, geralmente causada pela deficiência de ferro. Dessa forma, essa deficiência compromete a produção de hemoglobina, a principal proteína responsável pelo transporte de oxigênio nas hemácias.
Causas:
- Perda crônica de sangue (hemorragias menstruais abundantes, hemorragias gastrointestinais).
- Dieta pobre em ferro.
- Má absorção intestinal.
Achados Hematológicos:
- Microcitose: As hemácias apresentam tamanho reduzido (VCM baixo), já que a falta de ferro prejudica a síntese de hemoglobina.
- Hipocrômia: Se traduz, portanto, na redução na quantidade de hemoglobina dentro das hemácias, refletida no baixo valor do HCM (hemoglobina corpuscular média) e CHCM (Concentração de hemoglobina Corpuscular Média)
- Ferritina baixa: Indicativo de depleção das reservas de ferro no organismo.
- Transferrina elevada: Reflexo da diminuição, a transferrina (responsável pelo transporte) aumenta, pois “entende” que o ferro não está chegando.
2. Anemia das Doenças Crônicas (ADC)
A princípio, a anemia das doenças crônicas é observada em condições inflamatórias crônicas, como infecções, câncer e doenças autoimunes. Assim, é um tipo de anemia associada a processos inflamatórios que afetam o metabolismo do ferro.
Causas:
- Doenças inflamatórias crônicas.
- Infecções persistentes.
- Neoplasias malignas.
Achados Hematológicos:
- Normocitose: Em muitos casos, as hemácias são de tamanho normal (VCM normal), mas em alguns casos de ADC mais grave, pode haver uma leve microcitose.
- Normocrômia: As hemácias geralmente apresentam coloração normal ou um leve grau de hipocrômia, dependendo da gravidade da inflamação.
- Ferritina elevada ou normal: A ferritina, um marcador de ferro armazenado, geralmente se encontra elevada devido ao aumento da inflamação, que estimula a produção de hepcidina, um hormônio que restringe a liberação de ferro.
- Transferrina baixa: Assim, a produção de transferrina (proteína que transporta ferro) é reduzida, devido ao processo inflamatório há inibição de sua síntese, com maior direcionamento de prodção para as proteínas de fase aguda.
Ao contrário da anemia ferropriva, na ADC o problema não é a deficiência de ferro, mas a incapacidade do organismo de mobilizar o ferro disponível devido à interferência da inflamação crônica.
Considerações
O diagnóstico diferencial entre anemia ferropriva e anemia das doenças crônicas depende da avaliação clínica e dos resultados laboratoriais, como os níveis de ferritina, transferrina e os índices hematimétricos. A anamnese detalhada, incluindo história de perda sanguínea, inflamação crônica ou doenças subjacentes, é essencial para determinar a causa da anemia para posterior tratamento médico.

Referências:
Kassebaum, N. J. (2016). Global Burden of Disease Study 2013: Anemia Prevalence and Incidence. The Lancet Hematology, 3(4), e163-e170.
Weiss, G., & Goodnough, L. T. (2005). Anemia of Chronic Disease. New England Journal of Medicine, 352(10), 1011-1023.
Cazzola, M., & Iolascon, A. (2012). Iron Deficiency Anemia: The Evolution of Treatment Strategies. Haematologica, 97(7), 934-937.