O satelitismo plaquetário é um fenômeno raro observado em esfregaços de sangue anticoagulado com EDTA. Esse fenômeno ocorre exclusivamente in vitro e se caracteriza pela formação de “rosetas” de plaquetas ao redor de neutrófilos, podendo também envolver outras células sanguíneas, como eosinófilos, basófilos, linfócitos e monócitos.
Satelitismo Plaquetário em Neutrófilos e Monócitos. Fonte: CellWiki.
Embora o mecanismo exato do satelitismo plaquetário não seja totalmente compreendido, acredita-se que o EDTA, ao interagir com o sangue, modifica proteínas de membrana das plaquetas e dos neutrófilos. Isso expõe glicoproteínas que podem reagir com autoanticorpos do tipo IgG, especificamente direcionados contra o complexo glicoproteico IIb/IIIa (na membrana plaquetária) e o receptor Fc gama III (nos leucócitos). Esse fenômeno, então, resulta na aderência das plaquetas ao redor dos leucócitos, formando as rosetas visíveis ao microscópio.
O fenômeno tende a se intensificar com o tempo de exposição ao EDTA e é mais ativo em temperaturas abaixo de 25°C. Além disso, observa-se maior frequência de satelitismo plaquetário em pacientes com condições autoimunes, doenças hepáticas e certos tipos de câncer, como a leucemia linfoide crônica.
O satelitismo plaquetário pode provocar um efeito chamado pseudotrombocitopenia, isso porque as plaquetas aderidas aos leucócitos não são contadas corretamente na análise automatizada, o que pode resultar em uma contagem de plaquetas falsamente reduzida. Além disso, a interação pode resultar em fagocitose das plaquetas, o que também reduzirá seu número.
Estudos mostram que a pseudotrombocitopenia pode ocorrer em aproximadamente 0,1% das contagens laboratoriais diárias de plaquetas. Em laboratórios maiores, que processam cerca de mil hemogramas diariamente, isso pode resultar em um caso de pseudotrombocitopenia a cada dia.
Embora pareça raro, esse fenômeno apresenta um risco clínico significativo, pois pseudotrombocitopenia pode induzir à realização de exames adicionais desnecessários e até a intervenções terapêuticas inadequadas, como transfusões e, em casos extremos, esplenectomias.
Portanto, quando o satelitismo plaquetário é identificado, é possível corrigir a interferência de duas maneiras:
- Aquecimento da amostra: Aquecer o sangue a 37°C por cerca de 30 minutos pode reduzir a aderência plaquetária.
- Recoleta em citrato: Em casos mais persistentes, a recoleta da amostra utilizando citrato como anticoagulante (em vez de EDTA) e realizar a análise logo após coleta.
No entanto, ao usar o citrato, é importante ajustar o valor obtido: deve-se multiplicar a contagem por 1,1, ou seja, adicionar 10% ao valor liberado pelo equipamento. Esse ajuste compensa a diluição causada pelo citrato, garantindo uma contagem de plaquetas mais precisa e confiável.
Exemplo: Se o resultado das plaquetas emitido em citrato foi de 210 mil/mm³, deve-se multiplicar por 1,1 (210 x 1,1 = 231 mil/mm³). Resultado final a ser liberado no laudo: 231 mil/mm³.

Referências:
DA SILVA, Paulo Henrique et al. Hematologia laboratorial: teoria e procedimentos. Artmed Editora, 2015.
PAYNE, B.; PIERRE, R. Pseudothrombocytopenia: a laboratory artifact with potentially serious consequences. Mayo Clin Proc, v. 59: 123-5, 1984.
SOUZA, E. F. et al. SATELITISMO PLAQUETÁRIO–UMA CAUSA POUCO CONHECIDA DE PSEUDOTROMBOCITOPENIA. Hematology, Transfusion and Cell Therapy, v. 46, p. S157, 2024.
VEGA, Benito; HERNÁNDEZ-CHAVARRÍA, Francisco. Tercer caso de satelitismo plaquetario en Costa Rica: Un fenómeno poco reportado. Revista Costarricense de Ciencias Médicas, v. 23, n. 1-2, p. 47-51, 2002.